Podemos afirmar que provar bebidas espirituosas é por si só uma arte! Quer seja de uma maneira profissional ou apenas por prazer pessoal, esta arte é como um ritual que explora a bebida através da análise de diversos fatores. É algo a que se deve dedicar algum tempo num ambiente descontraído e neutro, livre de odores e acompanhado por um bloco de notas. As provas são fundamentais para qualquer profissional que queira fazer crescer o seu banco de memórias sensoriais, são aromas e sabores que ficam na nossa memória e que vão ser úteis em provas que faremos mais tarde. Pois só conseguimos reconhecer o que conhecemos, provar muito é o único caminho para fazer um bom arquivo.

Neste artigo damos-lhe algumas dicas de como tirar um melhor partido de uma sessão de prova, e alguns cuidados a ter para que possa obter uma melhor compreensão das bebidas espirituosas nas suas diversas categorias.                                             

 

Aparência

A prova começa com a análise da aparência do líquido no copo.

Nesta fase escrevem-se as notas relativamente à sua cor, que poderá ser analisada simplesmente usando uma folha branca como fundo.

Apesar de todas os espirituosos serem incolores quando saem do alambique, a verdade é que a variedade de cores é vasta e vai do incolor, por exemplo no caso de algumas vodkas e alguns gins, passando pelo amarelo palha, e por todos os tons de cobre, topázio, ouro velho, âmbar, entre outros. Esta coloração deve-se na sua grande maioria ao envelhecimento em barrica, mas também por infusões posteriores à destilação, adição colorantes em alguns casos e adição de caramelo também permitida em alguns espirituosos afim de fazer acertos na cor do produto final para ir ao encontro do standard estipulado por certas marcas. Assim podemos concluir que julgar um espirituoso simplesmente pela sua cor, pelas razões acima indicadas seria incorreto.

Para além da cor, nesta primeira abordagem devemos analisar o líquido em si, a sua textura. Se é um líquido brilhante ou opaco, se apresenta algum tipo de resíduos e até quase que podemos prever a sensação que irá causar na boca  quando analisamos a formo como o líquido se porta no copo através das “lágrimas” apresentadas nas paredes do copo. Se são “lágrimas” grossas que correm lentamente ou se por outro lado são finas e mal se aguentam nas paredes do copo.

 

Aroma

É uma das partes mais importantes da prova, senão mesmo a mais importante. Sabemos que está intrinsecamente ligado à conclusão que obtemos de sabor, daí que quando estamos constipados e com o nariz tapado o comer “deixa de ter sabor”.

Ao contrário do vinho, quando se provam bebidas espirituosas em que o grau alcoólico ronda os 40%, por vezes mais, por exemplo no caso dos “cask strenght”, não é necessário fazer o girar do copo, nem meter o nariz lá dentro, isso faria com que o álcool aniquilasse os receptores nasais temporariamente. Aqui devemos abordar o copo com cautela, como sugere Colin Dunn, Whisky expert da Diageo UK, devem ser várias as abordagens ao copo em curtos espaços de tempo, como se de uma conversação se tratasse. Devemos tentar decifrar os aromas que vamos apanhando nas diversas abordagens, até porque alguns espirituosos têm tendência a desenvolver os aromas depois de servidos. Experimente fazê-lo com a boca ligeiramente aberta e fechada e veja as diferenças.

Podemos explorar o aroma em dois campos distintos. A nível de intensidade, se é um aroma leve, médio ou pronunciado e a nível das suas características, quais as notas que conseguimos identificar, podem ser florais, frutadas, vegetais, de especiarias, amadeiradas, herbais, etc e tentar ainda especificar em cada uma delas, que tipo de fruta, que tipo de especiaria, etc.

 

Sabor

Com a ingestão do líquido, fecha-se o ciclo da prova e formam-se conclusões. A primeira curiosidade, será talvez perceber se as notas que tirámos relativamente ao aroma acompanham o que estamos a provar ou se trazem algo de novo. Sendo que o sabor está tão ligado ao aroma, experimente fazer como quando se prova vinho e com o espirituoso na boca faça entrar ar entre a boca ligeiramente aberta. É doce ou seco? E em relação ao álcool? É equilibrado, leve ou pronunciado? Tenha também em consideração a sua textura, na maneira como o espirituoso envolve a sua boca, se tem pouco corpo ou pelo contrário é encorpado, tenha como exemplo a textura do leite, a diferença do leite magro, meio gordo e gordo.

Depois de provar, qual a sensação com que fica na boca? É suave, equilibrado ou deixa ardor? Consegue identificar alguma nota em particular ou apenas algo complexo? Como é o seu final, permanece longo ou desaparece em pouco tempo?

Por fim, experimente adicionar uma medida de água equivalente a metade da medida de espirituoso que tem no copo e volte a executar todos os passos que fez em relação ao aroma e ao sabor. A água irá baixar o teor alcoólico e abrir os aromas, por vezes revelando notas não percepcionadas anteriormente, aqui poderá agitar o copo.

 

Dicas para fazer uma prova eficiente:  

 

. Escolha um ambiente neutro, livre de odores, arejado e com luz natural

. Evite lavar as mãos com sabonetes bastante perfumados

. Evite o uso de cremes, aftershaves e perfumes

. Altura ideial é o final da manhã, evite tomar café e fumar antes da prova

. Escolha um copo adequado, de maneira a canalizar os aromas para o topo, o “nosing glass” ou o copo de vinho do Porto funcionam muito bem.

. Prove os produtos à temperatura ambiente, pois a temperatura afeta o aroma e a textura

. Antes de engolir o líquido, faça-o “passear” no interior da sua boca, para que possa ter várias percepções em diversos pontos da língua.

. Sempre que possível, faça uma prova comparativa com outros produtos da mesma categoria que já conheça

. Tire notas, quantas mais escrever melhor.

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