Ao prepararmo-nos para beber uma cerveja é provável que o primeiro contacto que estabelecemos seja com a sua aparência, isto é, a cor e volume da espuma, a carbonatação, a forma como se desenvolve e evolui no copo e, talvez acima de tudo, a cor do próprio líquido. Todavia, a cor é das questões mais menosprezadas quando se analisa uma cerveja, antes se dando particular atenção, e com algum nexo, ao aroma e ao sabor.

Porém, se percepcionar algumas das características é relativamente consensual – mais ou menos espuma, turva ou translúcida, entre outras – já quanto à cor as divergências podem ser mais notórias. Senão vejamos: ao avaliar uma Pilsner checa, alguns poderão dizer que é amarela, enquanto outros referiram dourada e outros ainda cor de palha. A esta falta de consenso pode acrescentar-se a não correspondência que por vezes existe entre a designação de um estilo de cerveja e a própria cor, algo que deriva da tradição cervejeira britânica de nomear estilos pela sua cor aparente: Amber Ale, Brown Ale ou Irish Red Ale (IRA). Na verdade, uma IRA é realmente vermelha? A grande maioria tem tonalidades avermelhadas, certamente, mas a cor de base de muitas tende mais para o castanho. E já uma Weiss ou Blanche, é realmente branca?

Saliente-se, ainda, que ao contrário do que poderia ser expectável, o entendimento da cor está sujeita a uma componente psicológica que se assemelha à percepção que possamos ter do aroma ou do sabor. Efetivamente, se nos dizem que uma cerveja é castanha há muita probabilidade que a avaliemos num espectro muito próximo a essa cor, ainda que pudesse existir outra palavra que melhor descrevesse aquela tonalidade. Como um espectrofotómetro não é um aparelho que todos tenhamos por aí assim no bolso, temos pois de aceitar as condicionantes que existam, sejam elas pessoais ou físicas.

E em termos físicos e de prova, saliente-se alguns argumentos pertinentes. Por exemplo, a mesma cerveja poderá parecer ter cores diferentes consoante o volume de líquido que temos no copo ou se a observamos mais a meio ou junto às bordas do cálice. Outra situação a ter em atenção é o fundo sobre o qual estamos a fazer a observação, o qual deverá ser branco e não de outra cor, em especial se for muito escura. Algumas destas particularidades parecem óbvias, tal como o facto de avaliarmos uma cerveja com pouca ou luz ou com boa luz natural, com luz direta ou luz indireta, com luzes amarelas ou com luzes fluorescentes de tonalidade azul. Mas a verdade é que muitos de nós tendemos a cometer esses erros, ainda que saibamos os pressupostos corretos. Aliás, é bem provável que os nossos bares cervejeiros não tenham as condições ideias para analisar adequadamente a cor de uma cerveja. Mas não vai ser por causa disso que a vamos deixar de beber e de confraternizar, certo?

Um outro problema que vulgarmente encontramos quando estamos a definir a cor da cerveja é a pouca abrangência dos descritores de cor que sabemos utilizar. Sim, podemos caracterizar a cor como castanha, preta, amarela, mais clara ou mais escura. Mas quantos de nós recorremos com frequência a designações como alizarina, carmim, ocre, rútila ou terracota? Já para não falar da infinidade de combinações que podemos obter através da associação de algo conhecido, como cor de laranja, cor de rosa, cor de tijolo ou cor de salmão. Ao que é que isto nos conduz? A uma infinidade de hipóteses que impossibilita a implantação de um normativo comum. Ou melhor, impossibilitaria, já que essa problemática foi abordada há muitos anos, designadamente no final do século XIX, pelo cervejeiro Joseph Lovibond. Ele próprio filho de um cervejeiro da zona de Greenwich, inventou um instrumento designado por tintómetro ou colorímetro, o qual permitiu que os valores de cor de uma ampla variedade de sólidos e líquidos pudessem ser determinados de forma fidedigna.

A escala Lovibond foi profusamente aplicada desde a sua criação, tendo apenas perdido algum protagonismo desde meados do século passado, facto que se ficou a dever à introdução do espectrofotómetro. Este aparelho, tal como o colorímetro, permite quantificar uma cor, tendo dado origem a duas escalas de valores distintos: a inglesa EBC (European Brewing Convention) e a americana SRM (Standard Reference Method). Se durante alguns anos a conversão entre as duas escalas era uma dor de cabeça, a revisão da escala EBC, durante a década de 90, permite que hoje em dia seja facilmente transitável de EBC para SRM e vice-versa.

Como referi no início deste artigo, a cor é apenas mais um detalhe num processo muito mais importante que é o da experiência fantástica que a degustação de uma cerveja nos pode proporcionar. A cor não deve ser uma obsessão e não deve predispor ninguém a limitar as suas escolhas cervejeiras. Se antigamente era comum ouvir alguém dizer que não gostava de cervejas pretas, como se justifica essa afirmação atualmente perante um estilo como a Black IPA, por exemplo? Desfrute-se pois das cervejas e deixemos à nossa imaginação a descrição da cor!

 

 

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