Drinks Diary: O que significa para ti o “Dia da Mulher”?

À semelhança de outras datas, assinala um dia em que se homenageia algo ou alguém, um marco na história de um país ou tradição. Para mim é um dia comum, acho que tal como o natal ou outras datas independentemente de serem dias assinalados, as atitudes que praticamos deveriam ser as mesmas, em todos os outros dias, logo, o receber de uma flor, um convite para jantar, ou qualquer valorização nesta data, são gestos que caem bem em qualquer outro dia, todos os dias!

O dia da mulher em si, não me faz sentir mais nem menos “importante”, o comportamento que me dedicam todos os outros dias, esse sim!

Drinks Diary: É quase um cliché dizer que o Bar é um mundo de Homens, mas os números não mentem e as mulheres continuam a ser uma minoria. Porque achas que isso acontece?

Como todos nos apercebemos, isso não se alterou substancialmente nos últimos anos, não só lá fora, como por cá. A associação masculina será sempre mais notória, já que o estigma ainda está muito presente numa sociedade que diz querer igualar os direitos, mas que peca na hora de os reconhecer.

As mulheres, ainda que menos hoje em dia, continuam a ser vistas como “um chamariz” para um bar ou discoteca, pela beleza, pela roupa mais ousada, pela maquilhagem impecável, o que não me choca, já que a beleza é sem dúvida um ponto a favor, em qualquer trabalho e vale tanto para mulheres quanto para homens.

Choca-me sim que só nos vejam assim, como se não pudéssemos ser boas profissionais, reconhecidas e bem pagas por isso!

Felizmente, esse “pré-conceito” tem vindo a mudar, e já nos afirmamos quer atrás do bar, quer a dar formações.

Drinks Diary: Já te aconteceu alguma situação caricata atrás do bar, que achas que não teria acontecido se fosses um Homem?

Não. Já me aconteceram várias, mas sei que também acontecem aos homens, quer as abordagens, quer os olhares de “dúvida” sobre se saberemos fazer tal pedido. Acho que acontecem, talvez, em maior proporção a nós.

Drinks Diary: Ser mulher e trabalhar “na noite”. Existe ou não um estigma social em relação a isso?

Existe, não tenho dúvidas sobre isso! Como referi há 2 pontos atrás, julga-se ainda muito pela beleza, aposta-se pouco na formação, e os empregadores também não o fazem.

Cabe-nos a nós, ser estudiosas, ser curiosas e mantermo-nos a par das tendências da coquetelaria, ao nível dos ingredientes e utensílios, claro que algumas e alguns veem isto apenas como um part-time e pressupõe que não têm de “aprender”, mas aí vai do profissionalismo de cada um/a..

Drinks Diary: Enquanto profissional sentes que és valorizada pelos teus pares?

Sim! Sempre fui bastante! Agora a “família Bartender” aumentou, porque todas estas inovações também nos permitem estar mais vezes juntos, seja em formações de marcas, concursos, masterclasses. Logo o conhecimento e partilha é muito mais abrangente.

Drinks Diary: Como é que o “mundo do bar” surgiu na tua vida?

Como a maioria, comecei a trabalhar para ganhar uns euros, no meu caso aos 13, sim, nem era permitido. Trabalhava aos fim-de-semana e nas mesas. Aos 16, já mais a sério fui trabalhar para as Docas, ainda como empregada de mesa, e estávamos em 1999, e daí em diante passei por várias bares, onde adquiri experiência mínima. Umas caipirinhas, umas imperiais, uns vodka laranja, uns whisky cola, uns shots, naquela altura era o que se servia! Mas deu-me sobretudo estaleca e rapidez.

Posteriormente em 2003 fui convidada para iniciar um projeto de um bar no Algarve, que não correu bem, e por coincidência o Wild abre e eu começo lá em setembro.

Aí ganhei uma perspetiva totalmente diferente, quer a nível de drinks, quer a nível de utensílios, do próprio equipamento de bar, a estação, o ponto de água, o blender, o mixer, os containers, os shakers, era um mundo!

E eu apaixonei-me! Embora tivesse sempre prezado por ser melhor no pouco que conseguia absorver, foi naquele momento que decidi que era aquilo que queria fazer da vida, tinha 20 anos, e que queria formar-me o mais possível, para um dia chegar mais perto das lendas que tinha ao meu lado!

Drinks Diary: Na tua opinião, de que forma é que a indústria de bebidas pode tornar-se mais inclusiva para as mulheres?

Deixando-nos trabalhar, contratando-nos sem olhar a esse facto, deixando de nos penitenciar porque se formos mães na sua ótica seremos menos produtivas, mas principalmente dando-nos mais formações teóricas e práticas para fazermos mais e melhor pelas casas onde estamos!

E aos donos dessas casas, entender que a aposta na formação é sem dúvida o melhor que podem fazer não só pelos funcionários mas por eles próprios!

 

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