César Coutinho é uma figura carismática da indústria de bebidas em Portugal, venceu este ano o prémio de Melhor Embaixador de Marca no Lisbon Bar Show pelo trabalho que tem desenvolvido com marcas como a Fever Tree e a Plantation Rum. Ser Embaixador de Marca já não é só um trabalho, é aquilo que define o compasso de uma vida marcada pela paixão pelo que faz e muitas histórias para contar.

 

 

 

 

Drinks Diary: És um bom contador de histórias, já ouvimos aventuras tuas que davam para escrever um romance. Já estiveste em diversos países, tiveste várias funções, como é que chegas a ser Embaixador de Marcas como a Fever Tree ou a Plantation Rum?

Conheci a Fever Tree em 2006 quando trabalhei na Marriott Internacional, estava na Escócia e na altura era o nosso mixer de serviço, tínhamos o ginger beer e a tónica. Não sabia nada sobre o produto mas gostava bastante e por essa altura já tinha em mente o que queria fazer a seguir, queria evoluir e quando saí do Sky Bar decidi abrir uma empresa com o projecto todo que eu tinha feito ao longo dos anos e uma das ideias era procurar a Fever Tree. Encontrei a empresa Schmidt-Stosberg que representava a Fever Tree em Portugal mas não sabia bem o que era o produto. Em conjunto com o Márcio Ramos que era Embaixador da Bacardi Martini em Portugal apresentámos um projeto ao Ralph Schmidt-Stosberg para mostrar o que podíamos fazer com a marca. Andámos ali uns seis meses para trás e para a frente e comecei como Embaixador de Marca da Fever Tree em 2012.

 

Drinks Diary: Fundaste este ano em conjunto com outros dois sócios a Viriathus Drinks. Porquê lançar uma nova empresa neste momento?

No fundo foi fazer o spin off da Schmidt-Stosberg, o negócio das bebidas estava a começar a pesar na empresa, percebemos que o valor das bebidas era elevado e que havia condições para criar uma empresa nova, a decisão passou por aí, ter um maior controle sobre o negócio das bebidas e separar as coisas porque muitas vezes o cliente dos copos não é o nosso cliente das bebidas e vice-versa, apesar das coisas serem ambas próximas.

 


“E se hoje em dia vender 100 mil garrafas pode ser fácil, para o ano a seguir se as pessoas não souberem o que é que beberam não pedem e a marca de repente desapareceu.”


 

Drinks Diary: Foste eleito o “Melhor Embaixador de Marca 2016” em Maio no Lisbon Bar Show. Que significa para ti esta distinção?

Foi ótimo, fiquei feliz com o prémio. Em tom de gozo houve alguém que me disse que aquilo não foi o prémio de Embaixador de Marca 2016 mas sim um prémio carreira, e de facto olho para esse prémio dessa forma, haviam outras pessoas nomeadas, outras que não estavam mas deveriam ter sido e por isso foi uma grande satisfação, trabalhei muito nos últimos cinco anos, penso que enquanto Embaixador de Marca trabalhei bem, consegui levantar algumas marcas que ninguém conhecia, umas vezes sozinho outras com ajuda, na altura deu-me um gozo imenso ganhá-lo!

Drinks Diary: Num mundo dominado pelas gigantes multinacionais, como é que uma empresa como a tua desenvolve um portfólio com marcas internacionais?

Abraçamos marcas que sintam o mesmo que nós: Paixão. E é isso que nos faz mover muitas vezes e a Fever Tree é isso, nós falávamos diretamente com eles quando começámos e na altura a marca estava longe de ser a marca grande que é hoje, nem tinham Diretores de Marketing, eram eles e a malta que fazia as encomendas e notávamos que havia uma paixão enorme pelo que estavam a fazer e nós conseguimos transmitir a eles que sentíamos o mesmo, que iríamos tratar a marca como se fosse nossa e iríamos fazer o melhor. É isso que temos mostrado a todas as marcas e é isso que as marcas querem. Estas marcas não querem números logo de início, querem construir o seu nome. E se hoje em dia vender 100 mil garrafas pode ser fácil, para o ano a seguir se as pessoas não souberem o que é que beberam não pedem e a marca de repente desapareceu. Foi o que mostrámos também à Maison Ferrand, que nós trabalhamos com calma e serenidade, mostrando o produto como deve ser e o resultado é que hoje em dia toda a gente conhece o Plantation Rum ou o Gin Citadelle. Eles já estavam cá antes de começar a trabalhar connosco e ninguém os conhecia, logo é a nossa forma de construir a marca que nos diferencia.

 


“(…) hoje em dia toda a gente conhece o Plantation Rum ou o Gin Citadelle. Eles já estavam cá antes de começar a trabalhar connosco e ninguém os conhecia, logo é a nossa forma de construir a marca que nos diferencia.”


 

Drinks Diary: Ser Embaixador de Marca é fazer “vida de estrada”, conheceste o país de norte a sul nos últimos anos. O que mais mudou desde que iniciaste este percurso?

Em termos pessoais, passei por viver as coisas muito rapidamente, tudo muito intensamente. Trabalhei vários anos em hotéis e era aquela rotina, entrar e sair e neste momento não estou em casa, no verão estou no Algarve um pouco mais de tempo, mas o resto do ano ando na estrada. Mudou muito em termos de relações, noto que as mulheres não têm paciência para uma pessoa que tem esta vida, eu bem tento, mas não dá (risos)!! Mas mesmo em termos familiares é complicado. Tenho a sorte de ter uma grande ambição e por vezes faço por estar com as pessoas, é difícil.  Mas eu gosto, a única coisa que me desgosta muitas vezes nesta área é a solidão, muitas vezes pensam que estamos sempre em festa, mas muitas vezes não queremos estar lá queremos estar noutro sítio qualquer, queremos estar no aniversário de um familiar ou simplesmente no sofá com o gato ou com o cão mas estamos numa festa numa cidade no interior, estamos a sorrir e a dizer que sim e a ensinar as pessoas, é bom, mas às vezes é algo solitário.

 


“(…) a única coisa que me desgosta muitas vezes nesta área é a solidão, muitas vezes pensam que estamos sempre em festa, mas muitas vezes não queremos estar lá queremos estar noutro sítio qualquer”


 

Drinks Diary: Quando olhas para o panorama nacional da indústria de bebidas o que sentes que ainda falta fazer?

O que há a fazer é as pessoas terem juízo e porem o pé no travão, porque agora está toda a gente a acelerar e parece que se esqueceram que ás vezes temos de ir mais devagar outras mais depressa. Anda tudo a “matar-se” uns aos outros, a maior parte das vezes sem necessidade.  Quando eu comecei havia um Embaixador de Marca como eu, um ou outro que aparecia muito raramente, a Pernod não tinha ninguém, da Diageo tinham saído muitas pessoas e andava meio perdida e de repente começaram a ver o mercado e agora há Embaixadores de Marca para tudo e para todos, ações constantemente e esquecem-se que se perdem clientes por causa disso, porque há clientes que se aproveitam e se for preciso todos os dias têm ações diferentes e não compram produto. Muitas vezes não vale a pena, se comunicássemos mais uns com os outros, ganhamos todos muito mais.  Eu tento afastar-me desse tipo de panorama porque não gosto de entrar em guerras. Não é apenas a guerra de preços, essa sempre existiu, mesmo sem Embaixadores de Marca ou sem ações de marca, não é o nosso caso nós só fazemos acordos e só o fazemos quando a pessoa acredita no nosso produto, quando nos abordam porque querem algo só pelo preço, a nós isso não nos move.

 

Drinks Diary: Que conselho darias a alguém que queira ser Embaixador de uma Marca de bebidas?

Essa é difícil, na verdade diria às pessoas “Não queiras, estás bem como estás!”. Tem de gostar muito de si próprio, acreditar em si e tem de ser uma pessoa que não seja muito ligada a bens pessoais e à família, se não tiver essas características não chega lá. Tem de ser forte para aguentar a pressão, hoje estamos aqui amanhã estamos ali e daqui a três horas tem de se estar não sei onde. Não é fácil faltares constantemente a um aniversário, faltares ao batizado, não estares no casamento de um amigo. Tens de fazer as pazes com o facto de que não vais estar presente, e saber que nunca podes combinar nada com antecedência. Sim senhor achas que vais, mas depois se for necessário já não vais porque há esse papel mais importante a desempenhar que é o de seres o Embaixador de Marca.

Drinks Diary: Estás quase a dizer que a tua profissão é um imperativo máximo?

Para seres bom tem de ser. Para seres só um Embaixador de Marca não tem de ser, para seres “O” Embaixador de Marca tem de ser. Estou de férias no algarve e não houve um dia que não tivesse visitado um cliente, todos os dias faço algo.

 

Drinks Diary: Em termos profissionais, depois da distinção no Lisbon Bar Show, da abertura da empresa e de um percurso tão diversificado, o que ainda sonhas alcançar?

Viver um dia de cada vez, penso que assim se constroem as coisas. É claro que se abrimos a empresa, se aumentamos o portfólio e ainda estamos a tentar tê-lo mais completo para termos mais força onde estamos é porque ambicionamos mais, ambicionamos crescer. Em termos de Embaixador de Marca ganhamos agora o prémio, e digo ganhamos porque não fui eu que ganhei fomos todos na equipa, e isso torna as coisas mais difíceis para conseguir ganhar outra vez. Não é essa a ambição, se ganharmos será excelente, será o reconhecimento de mais um ano de trabalho, mas não é esse o nosso foco, o foco é continuar a fazer o nosso trabalho e crescer, começamos isto do zero há cinco anos atrás, costumo dizer que nem foi do zero, foi do menos 20 e neste momento é tudo crescimento, estamos a planear ter mais um armazém e continuar a crescer.

 

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