A arte de bem receber pode ser de uma simplicidade tal, que chega a ser desarmante. Encontramo-la nos sítios mais improváveis, por detrás de portas discretas, de um sorriso sincero e despretensioso. Entramos por vezes em sítios magníficos, decorados para nos fazer sentir no paraíso, mas depois quem nos recebe traz por detrás da farda um sorriso gelado. Essas experiências fazem-me lembrar que como diria Anaïs Nin “O luxo não é uma necessidade para mim, mas a beleza e as coisas boas são.”

Num fim de dia destes andávamos na rua a saltar de bar em bar na tarefa de desenhar aquilo que vai ser o City Guide da primeira edição da Drinks Diary e demos por nós na rua de São Paulo, entre um Pistola Y Corazon cheio e A Tabacaria. Era tarde e a missão do dia estava ainda por cumprir, queríamos apenas comer algo rápido e avançar.

Mas entrámos por uma porta tão cativante que nos esquecemos do que estávamos ali a fazer e ficámos, comemos, bebemos e vamos com toda a certeza voltar.

O Ângulo é um pequeno espaço familiar mesmo ao lado da Tabacaria. Encontramos nessa casa de esquina a vontade do proprietário de apresentar Itália a Portugal e desse encontro sai um menu de petiscos simples, como a tábua de enchidos, tostas, saladas com queijo mozarela e outros acepipes que cruzam produtos portugueses com italianos.

O espaço é pequeno e parece meio improvisado debaixo de um magnifico teto trabalhado de casa antiga. Mas o calor humano é tanto, que a noite de inverno não se sentiu. Talvez seja porque as palavras de José Figueiredo e da filha nos fizeram sentir em casa e os copos nunca ficaram vazios, ou porque outros clientes habituais entraram e saíram e nos mostraram a cumplicidade que os une ao espaço. O certo, é que o petisco rápido no Ângulo, se transformou num jantar de mesa farta e conversa longa.

O espaço tem duas mesas, um balcão e umas quantas prateleiras ao estilo mercaria com produtos italianos para levar para casa. Há montras para a rua e pósteres retro na parede. O menu no balcão anuncia o aperitivo ao preço extraordinário de 3€. A musica escolhe-se ao gosto do freguês e só serve de fundo à conversa animada.

De tudo isto o que nos fez então esquecer da missão da noite?

Um sorriso largo à entrada, que só pode existir no rosto de quem realmente gosta de receber pessoas em sua casa. Seja na sala de visitas, seja no bar. Receber é uma arte que não precisa de luxo, só de um genuíno querer.

E no tempo das experiências, em que o bonito e a qualidade são algo de generalizado, são estas as pessoas que fazem a diferença.

Talvez não me volte a lembrar do nome daquele restaurante extravagante que entrei há uns anos e fui servido com poupa e circunstância, mas certamente que não me vou esquecer do petisco que tirei no Ângulo.

Foto: Frederico Brilhante Dias

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