Drinks Diary: O que significa para ti o “Dia da Mulher”?

Não significa nada, honestamente. Acho que é apenas uma calendarização de um dia que devia ser tido em conta todos os dias.

Drinks Diary: É quase um cliché dizer que o Bar é um mundo de Homens, mas os números não mentem e as mulheres continuam a ser uma minoria. Porque achas que isso acontece?

A meu ver acontece porque, infelizmente, ainda se vê muita sexualização de algumas profissões, nomeadamente a de Bartender. Para muita gente, estar atrás de um bar significa alargar o decote, encher a cara de maquilhagem, usar roupas que salientam a fisionomia feminina em vez de se focarem naquilo que, de facto, importa: o produto que vão consumir e a história que está por trás dele. Ainda se vê muito o uso da mulher como objeto sexual que vai impulsionar a venda de um produto por causa dos seus atributos físicos (por exemplo o  caso específico das promotoras que acompanham as ações de marca sem, muitas vezes, saberem o que estão a vender. São chamadas apenas por serem atraentes). Estas coisas para mim não fazem sentido. A mulher é tão qualificada quanto o homem, não deve ser objetificada. Paralelamente ao que se pensa, as mulheres também são possuidoras de cérebros, não só de mamas.

Drinks Diary: Já te aconteceu alguma situação caricata atrás do bar, que achas que não teria acontecido se fosses um Homem?

Muito abusiva não mas há muita tendência de se dirigirem ao meu colega de bar porque as mulheres não percebem do assunto, apenas sabem fazer bordados.

Drinks Diary: Ser mulher e trabalhar “na noite”. Existe ou não um estigma social em relação a isso?

Existe. Como disse anteriormente: as mulheres servem para fazer bordados. Há muita categorização das profissões por sexo e trabalhar num bar tem que ser um trabalho para os homens. Só estes têm a capacidade de aguentar noites inteiras e para consumir quantidades industriais de álcool. Quando se diz que as mulheres trabalham “na noite”, a tendência será perguntar se fazem algo ilegal ou se são adictas a álcool.

A noite é de poetas, pensadores e de apaixonados, não é mais ou menos isto? Ser Bartender é uma arte. Qualquer coisa que se faça com entrega torna-se arte. Trabalhar “na noite” sendo Barmaid exige estofo e desenvoltura. Não é fácil lidar com o cliente impaciente e que por vezes se estica porque vê alguém do sexo feminino a servir-lhe um cocktail. Haja respeito e valorização por esta arte de conjugar sabores quer seja uma mulher ou um homem a fazê-lo.

Drinks Diary: Enquanto profissional sentes que és valorizada pelos teus pares?

Muito. Felizmente vejo muito o espírito de uma pequena família que começa a surgir em Portugal e o apoio e apreço é constante. Temos excelentes profissionais e ver que há suporte entre uma boa maioria aquece o coração.

Drinks Diary: Como é que o “mundo do bar” surgiu na tua vida?

Surgiu um pouco por acaso. Saí do país no ano passado e para ganhar dinheiro comecei a servir à mesa. Entretanto via o povo a fazer umas coisas giras com garrafas e fiquei com muito interesse. Comecei a investigar e a falar com alguns dos Bartenders que trabalhavam no espaço até pedir à gerente para me deixar ir para o bar. Surgiu então a oportunidade de ser Barback e depois a promoção para Bartender.

Drinks Diary: Na tua opinião, de que forma é que a indústria de bebidas pode tornar-se mais inclusiva para as mulheres?

Não fazendo a separação sexista e desnecessária que se faz e dando a oportunidade a cada um de mostrar os seus dotes independentemente de qualquer outra coisa.

Drinks Diary: Nos locais onde trabalhas costuma haver a celebração do dia da mulher?

Não.

 

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