Sejamos realistas, existem bons Espumantes e maus Champanhes, escusado será dizer, que o inverso também acontece, o que não deveria existir é a comparação de ambos. Muitas vezes me deparo com esta ideia pré-concebida na mente das pessoas. Questionam-se se será que os champanhes são assim tão melhores que os Espumantes?

Honestamente, é uma pergunta que nem devia ser feita, ambos tem características diferenciadoras, porque é que não ouvimos ninguém pergunta “Os Marsalas são melhores que os Portos?’’.

Os champanhes tem o seu próprio e único terroir,  tem a sua história,  lembremos que foram  eles que inventaram e desenvolveram o método mais famoso e de maior qualidade de produção do espumante, o tradicional, e que a sua história tem mais de 450 anos. Não é justo comparar-los com uma região como a Bairrada que faz espumantes há sensivelmente 150 anos, ou até mesmo com Távora e Varosa cuja produção de espumantes tem cerca de quatro séculos, embora com pouco casas produtores.

Falemos de aspectos  diferenciativos entre Champagnes e Espumantes da Bairrada. Temos o Champanhe com toques diferentes e evolutivos de pastelaria, brioche e amanteigados, coisas deste género enquanto que a Bairrada faz espumantes mais minerais, mais rochosos, com um pouco mais de  fruta também.

No meu entender, deveríamos focar-nos a marcar a diferenciação dos nossos Espumantes, se a Espanha conseguiu com os seus Cavas, e muito mais a Itália com os seus Prossecos, porque não atacarmos o mercado e os clientes que nos visitam dizendo ‘’Temos o Nosso Espumante’’ pronunciando-o com regozijo e orgulho. Devo de notar também que a Bairrada o tem procurado fazer com o Baga Bairrada, o que a meu ver faz sentido no rumo deste produto na Região, mas não me parece que irá afetar muito no que toca ao Espumante de Portugal para além fronteiras.

Pessoalmente, gosto muito de trabalhar os espumantes da Bairrada, sejam eles tintos, brancos ou rosés.

Tintos? Sim tinto. Primeiro porque servir um Espumante tinto a um cliente, principalmente se for estrangeiro,  abre a porta da conversa, depois, e tal como na Bairrada o usam para a gordura do leitão, também eu o uso para a gordura de alguns pratos, lembro me de um Foie Gras com lentilhas, usando os sabores vinosos do Espumante tinto para trabalhar a proteína e gordura do foie, ao mesmo tempo que o gás carbónico limpa o palato e dá uma complexidade diferente à harmonia.

O Espumante vai do pequeno almoço até depois do jantar. Dizem que a única refeição que se toma sem vinho é o pequeno almoço, mas é mentira porque até no pequeno almoço se pode beber Espumante, Champanhe ou uma qualquer outra bebida ‘’refermentada de propósito’’. Quase todos os hotéis de 5 estrelas tem uma garrafa no buffet ao pequeno almoço.

Há duas coisas que não dispenso, Vinho do Porto e Champagne, ou se for um espumante bem feito, facilmente troco o Champagne. Enquanto Sommelier, os Espumantes são a nossa wrecking ball, quando temos um prato muito difícil raramente o espumante não é a nossa ajuda. Se temos pratos que os vinhos não conseguem acompanhar por norma vamos buscar um espumante porque mais não seja irá limpa o paladar.

Falando de Processos, há várias técnicas para fazer a espumantização. Para se engarrafar como Champagne só se pode fazer da forma tradicional, ou método Champenoise. O segundo método mais usado será talvez, o método Charmat. São cerca de nove as técnicas de espumantização possíveis, as restantes distinguem-se por serem mais baratas e mais tecnológicas que a tradicional. Mas os grandes espumantes do mundo, não só o Champagne, os Crémants, ou os Franciacortas por exemplo, são feitos pelo método tradicional.

Em Portugal a grande maioria dos espumantes é obtido pelo mesmo método. É o que temos de semelhante com o Champagne, são bebidas que sofrem uma segunda fermentação em garrafa é daí que lhe advém o CO2 mas depois tudo é diferente, temperaturas diferentes, solos diferentes e resultados finais também ele diferente como referido anteriormente. Em Portugal ainda não há muito o hábito de fazer as primeiras fermentações em barricas de carvalho, enquanto que na região de Champagne alguns produtores já abdicaram na totalidade do inox ou de outros métodos de estágio para fazer na totalidade a primeira fermentação em madeira. Depois em Champagne têm algo que eu pessoalmente sou contra mas que ajuda muito em termos comerciais, o uso de açúcar no licor de expedição que na Bairrada, que produz mais o chamados espumantes Brut Nature. Para ser um Champagne Brut as gramagens de açúcar aceitáveis são muito mais elevadas que em Portugal.

Normalmente casas que produzem bom vinho fazem bons espumantes, por isso as referências na Bairrada serão quase as mesmas que dei na edição anterior, claro que posso falar no Carvalheira, ou no Ataíde Semedo, ou mesmo no Osvaldo Amado a fazerem os seus próprios espumantes ou como enólogos das Casas, como o Hibernus, ou mesmo a Quinta do Encontro. Em Távora Varosa temos o muito conhecido e de grande qualidade, Murganheira que é o que se pode chamar um clássico e ainda o Terras do Demo, já no Douro temos o Celso Pereira com os espumantes Vértice um dos meus favoritos e a fazer grandes espumantes. Haverá outras referências em Portugal e novas a surgir todos os anos. Falta-nos só a vontade institucional para com uma boa campanha de marketing afirmar o espumante Português no panorama internacional.

 

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