Humberto Marques é um português a viver em Copenhaga na Dinamarca, foi lá que abriu o Curfew, um bar de referência no centro da cidade. É um apaixonado pela cultura de bar vintage e um colecionador, quer de peças relacionadas com a arte de bar como de conhecimentos que foi adquirindo nos vários locais por onde passou desde que saiu de Portugal, impulsionado pela vontade de crescer na indústria de bebidas, até que se estabeleceu na cidade que hoje chama de casa. Um percurso de vida que segundo o mesmo se desenhou a si mesmo, movido pela paixão e pela vontade de saber sempre mais.

 

Drinks Diary: Como é viver e trabalhar em Copenhaga?

Na Dinamarca, as pessoas têm um bom equilíbrio entre trabalho e lazer. Raramente trabalham para lá das 18h00 e há tempo para estar com a família, assim como há tempo para relaxar. Viver em Copenhaga é muito caro em comparação com Portugal. Os dinamarqueses pagam um imposto elevado entre 40% a 60%, mas têm um sistema de bem-estar social forte, que protege os mais fracos. No entanto, a Dinamarca está também a experienciar o mesmo fluxo crescente de imigrantes que o resto da Europa, e tem de levar em consideração a forma de manter esse sistema de bem-estar. Muitos acreditam que é impossível, mas as raízes solidárias da cultura dinamarquesa são fortes, por isso tem sido preservado, por agora.  Eu gosto do povo dinamarquês. Eles são um pouco reservados, não são tão sociais como os europeus do sul, mas parecem ser felizes! Talvez não sejam as pessoas mais felizes do mundo, afinal aparecem apenas como os segundos mais felizes a seguir aos Noruegueses! Os dinamarqueses dão-se bem com os portugueses, pois parecemos ter o mesmo temperamento, e os guerreiros vikings dinamarqueses eram como nós, ansiosos por sair para conquistar o mundo.

Drinks Diary: Antes de chegares à Dinamarca passaste por um cruzeiro, pela Escócia, foste Brand Ambassador. Como é que desenhaste esse percurso profissional?

Antes ainda passei por hotéis em Portugal de 4 e 5 estrelas, depois percebi que se queria crescer nesta indústria teria que sair de Portugal para tentar alcançar mais conhecimento e aprendizagem. O cruzeiro foi plano B porque o destino já era o Famoso Gleneagles Hotel na Escócia, a candidatura para o bar foi aceite só que não tinham alojamento para mim durante dois meses, foi então que optei por tentar outra oportunidade e assim fui até ao sul de França durante dois meses num cruzeiro. O Gleaneagles Hotel contactou-me novamente e de França parti para a Escócia. Passei um ano no Gleneagles aí fui convidado por um Chefe celebridade para trabalhar no seu restaurante & cocktail bar em Edimburgo (tinha ganho vários prémios como melhor cocktail bar e restaurante) chamava-se Oloroso, vários Bartenders conhecidos trabalharam lá, alguns comigo, foi o caso dos donos do Bramble (Edimburgo), ou do Ryan Chetiyawardana que trabalhou comigo eu era Ass. Bar Manager quando lhe demos trabalho como Bartender no Oloroso, sem dúvida foi um cocktail bar onde aprendi bastante. Mas também por mim próprio tive que continuar a fazer a minha própria pesquisa estando atento como chefes trabalhavam com a combinação de sabores. Aqui passei quatro anos, os dois últimos como Bar manager, entrei em competições e ganhei algumas, aceitei desafios como Brand Ambassador, mas sempre ficou a saudade e depois acabei por voltar ao bar. Acho que quem desenhou o meu percurso foi sem dúvida a minha paixão e vontade de sempre querer ir mais longe agarrando sempre a procura de originalidade em tudo o que fiz na indústria.


“Acho que quem desenhou o meu percurso foi sem dúvida a minha paixão e vontade de sempre querer ir mais longe..”


Drinks Diary: Já escreveste para sites e blogues com conteúdos sobre a indústria de bebidas, estás por isso atento às tendências. O que está a marcar a atualidade na Europa hoje em dia?

Existe uma grande aderência aos produtos e ingredientes nacionais e locais de cada país, novos métodos e apresentações na confeção de cocktails, juntam-se à atualidade.

Drinks Diary: Manténs contacto com a realidade da indústria portuguesa? Como olhas para as mudanças dos últimos anos?

Lamento dizer, mas não mantenho muito contacto com a indústria de bar em Portugal, a minha vida é muito ocupada com a família e com o bar para tomar conta, tenho o tempo todo preenchido. Mas posso salientar que existe um crescente conhecimento da indústria de bar em Portugal neste momento, principalmente se comparado com anos anteriores.

Drinks Diary: Como definirias o Curfew, o bar que abriste em Copenhaga?

É um tesouro escondido (ainda!), onde os clientes podem ficar longe do stress diário, viajar de volta no tempo num ambiente acolhedor e experimentar grandes bebidas servidas por pessoas amigáveis, apaixonadas e competentes com uma grande atenção a pormenores que ficam marcados na experiência de cada cliente.

Drinks Diary: Quais são os desafios de ter um bar numa cidade como Copenhaga?

A cultura Dinamarquesa de sair para bares e mais concentrada ao fim-de-semana um pouco como nós, mas nós ainda vamos ao café tomar o expresso e acabamos por beber algo, eles não. Trabalham durante a semana e vão para casa pois trabalham no dia seguinte. Sem dúvida que existe outra razão para tal que é a parte de serem pouco sociáveis de não irem ao encontro de conhecer novas pessoas. Essa fronteira só é aberta ao fim-de-semana e com uma grande ajuda por parte dos Bartenders para quebrar essa barreira.

Neste país existem duas estações para esta indústria, uma baixa e outra alta. Outono e inverno é época alta, passagem de primavera para verão é época baixa, pois se o tempo está bom eles não visitam o bar, até mesmo à tarde, porque passaram o dia todo ao sol e a beber também, outros partem de férias, outros partem para as casas de verão aqui na Dinamarca, assim a cidade fica calma e os bares não fazem o devido lucro.

Drinks Diary:  Voltar a Portugal faz parte dos teus planos?

Sim, de férias com a família!

Drinks Diary: O que ainda não fizeste dentro da indústria de bebidas e que ambicionas fazer?

Desde os meus 15 anos, quando comecei a servir clientes até onde me encontro hoje já fiz muito, por vezes parece-me que tenho vivido várias vidas nesta indústria, quando olho para trás desde ter conhecido tantos clientes, como toda a evolução de cada bar em que trabalhei, tem sido sem dúvida uma grande viagem cheia de experiências, mas não queria deixar de salientar algo, a humildade pode levar longe uma pessoa quando junta com a paixão se nunca a perdermos. Outra coisa é que nunca sabemos tudo, há sempre algo novo para aprendemos no dia a dia.


“Desde os meus 15 anos, quando comecei a servir clientes até onde me encontro hoje já fiz muito, por vezes parece-me que tenho vivido várias vidas nesta indústria…”


Drinks Diary: Tens um gosto particular por material vintage, de que forma é que a história influencia o teu trabalho?  

Eu olho para meus livros vintage para ver como meus predecessores fizeram as suas receitas, e como a indústria de bartending, ou como outras indústrias evoluíram ao longo dos anos. No entanto, é ainda a mesma competência central que prevalece, que é para servir o cliente de uma forma amigável e respeitosa. Podemos obter um longo caminho através de um bom comportamento e maneiras, como nos velhos tempos.

Drinks Diary: Ajudaste a criar o Nuance Copenhagen Shaker. Quais são os pontos essenciais a ter em conta quando se cria material de bar?

Sim, dei a ideia principal e também a ideia do design inspirado num Vintage Shaker ao designer, mas salientei na altura que a funcionalidade era um factor muito importante, factor no qual o designer acabou por falhar. Sem dúvida a funcionalidade é um dos pontos cruciais. Inspiração e design têm de se aliar ao material de produção e à funcionalidade.

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