Há uns tempos atrás um amigo meu da Indonésia, proprietário de quatro coffee shops na capital, descreveu a diferença entre os dois cafés que servia no momento: “O Sumatra, bem, tem aquele gosto de café. Exactamente o que você espera de um café quando o prova. O Café da Etiópia, tem sem dúvida aquele sabor frutado. “

Ele com esta explicação, não me quis dizer necessariamente que o café indonésio recebe uma nota negativa, mas certamente não é descrito como, digamos, uma explosão de sabor que nos vai fazer reavaliar o café para sempre. Tal como acontece com muitos dos grandes países produtores de café, na Indonésia o foco tem sido o volume e não a qualidade. Mas a Indonésia tem as melhores condições para produzir grandes cafés, existindo sim uma falha no investimento e na aposta da formação.

Este meu amigo confessou-me que o projecto dele e de mais 2 amigos não era apenas trabalhar para vender café, mas para espalhar uma filosofia. A filosofia é que a especialidade indonésia existe e, com um foco contínuo na qualidade, com estudo dos varietais a plantar, com formação e apoio aos produtores, o café da Indonésia pode ser muito reconhecido no mundo. E na sua opinião é um trabalho que pode demorar anos até que novas gerações consigam mudar o rumo da situação.

Ao mesmo tempo existem algumas adversidades naturais. A extrema humidade que se faz sentir na Indonésia pode causar problemas com a secagem do café. A época de colheita vai de Junho a Setembro, mas mesmo durante a estação seca a humidade normalmente fica acima de 70%. Este elevado nível de humidade dificulta o processamento a seco, dado que não permite que os grãos fiquem ao ar livre muito tempo, situação esta que não dá qualidade ao café e que pode causar defeitos. A maioria das fazendas aplica uma combinação de processamento lavado e molhado.

Processamento lavado pode ser ambientalmente menos amigável. No entanto, as fazendas mais sustentáveis da Indonésia processam seu café directamente nos seus campos, onde podem reutilizar a mucilagem para fertilizantes e reciclar a água.

Relatos que essa mudança de paradigma pode estar a acontecer levam-nos à Fazenda, Java Frinsa Estate, o proprietário era um agricultor de batata bem conhecido que se virou para o café em 2010. Embora ele sendo novo no cultivo do café, Wildan, o agricultor, já foi capaz de produzir 70% de café de especialidade. Ele acredita também que o seu sucesso se deve à sua formação em cultivo de batata: é-lhe dado conhecimento e compreensão da pesquisa agrícola.

Em muitas propriedades de café na Indonésia crescem uma variedade das colheitas, não apenas de café. Práticas como a gestão fitossanitária e a manipulação pós-colheita da fruta são transferidas para diferentes tipos de culturas. Quando combinado com bom equipamento, esta compreensão agrícola pode produzir cafés de alta qualidade.

O factor humano também é muito importante, onde a nova geração de produtores se sente muito orgulhosa por aquilo que eles produzem e conseguem olhar para um futuro melhor do café. Se continuarem a concentrar-se na qualidade sobre a quantidade, estou convencido de que a indústria do café na Indonésia nos próximos anos vai dar um salto enorme.

Ao mesmo tempo e a uma velocidade de desenvolvimento bem diferente temos Timor-Leste. O Festival Kafe Timor regressará de 21 a 28 de Outubro, por um segundo ano, à nação de Timor-Leste, que produz café convencional.

As actividades do festival irão incluir uma competição nacional de qualidade, uma visita guiada às comunidades produtoras de café rural para profissionais internacionais do café, testes de qualidade em taça, sessões de treinamento de torrefacção e Barista e um programa de palestras concluindo uma cerimónia de premiação para os vencedores da competição.

O evento é organizado pela Associação do Café de Timor-Leste (ACTL – em Tetun), uma associação comercial sem fins lucrativos que representa as partes interessadas do café do país.

Na competição de qualidade do ano passado, os pequenos agricultores que cultivam a variedade de café de Híbrido de Timor, herança de Timor-Leste, lideraram o campo no concurso nacional de qualidade da Taça Nacional de Tunufahi, no distrito de Letefoho, em Ermera, atingindo a pontuação máxima de 84,45 pontos Painel de juízes internacionais cupping usando SCA protocolos. Segundo e terceiro lugar agricultores estavam a menos de meio ponto atrás, sugerindo o que será novamente uma competição emocionante na safra de 2017.

Isto prova que Timor está aos poucos a ganhar consciência que pode e deve produzir melhores cafés. Países com estas condições deveriam perceber a importância que o café pode ter nas suas economias. Com um plano ambicioso, com formação dos fazendeiros, com estudos sérios de quais os melhores varietais a plantar, com apoios para aquisição de tecnologia, tanto o mercado da Indonésia bem como de Timor pode beneficiar tremendamente com o aumento de receita. Vejam o exemplo da Colômbia, que nos dias de hoje, depois do Brasil já é o segundo maior produtor de cafés de especialidade do Mundo.

E para mim seria um orgulho um dia puder servir e beber um café de especialidade produzido em Timor!

 

PARTILHARShare on FacebookTweet about this on Twitter