Marvila é parte de uma Lisboa que foi caindo no esquecimento nas últimas décadas, a Lisboa industrial, das fábricas e do porto ativo. Dos grandes armazéns de vinho, das fábricas de fósforos e de sabão e das quintas com hortas que abasteciam os mercados da cidade. Uma Lisboa produtiva, que foi caindo em desuso com o avançar da época pós-industrial. Sobraram os despojos, grandes armazéns em ruínas, espaços de memórias. À luz do que aconteceu em outras cidades europeias, esta zona meio esquecida começa aos poucos a ganhar vida através de atividades como as artes, projetos empreendedores vão-se instalando porque Marvila é Lisboa, mas com preços mais acessíveis e sem a grande pressão turística.

Ninguém nega que os preços das rendas é o que primeiro atrai novos negócios, mas uma vez em Marvila percebemos que há um ambiente dinâmico, espaço para crescer e essa aura de contracultura e modernidade que contrasta com a tipicidade da construção industrial do início do século passado.

Talvez por isso falar numa Lisbon Beer District em Marvila soe tão bem, porque a cultura de cerveja artesanal é assim, busca em ensinamentos antigos formas de inovar, é experimental e irreverente, procura sempre mais e diferente e há tanto por explorar!

Foi aqui que encontramos três micro-cervejeiras a trilhar esse caminho, que por acaso se instalaram no mesmo quarteirão, com os seus projetos específicos mas que num clima de cooperação e concorrência saudável estão a trabalhar em conjunto para afirmar Marvila como o Beer District da capital.

 

Dois Corvos

 

A Dois Corvos foi a primeira cervejeira e instalar-se em Marvila. O projeto do casal Susana Cascais e Scott Steffens encontrou neste bairro as condições necessárias para desenvolver o projeto, que segundo Susana fazia todo o sentido ser feito dentro dos limites da cidade de Lisboa, pois a Dois Corvos está intrinsecamente ligada a Lisboa, os dois corvos fazem parte do brasão de armas e da lenda da cidade.

“Na altura não tínhamos ideia que Marvila ia explodir, mas este espaço tinha a área que nós precisávamos, era uma zona com bons acessos para receber e enviar mercadoria, o preço era o certo para nós”. Nasceu assim a Dois Corvos que inicialmente era apenas uma pequena fábrica de cerveja mas que hoje em dia tem também uma Tap Room com cervejas da Dois Corvos para degustar e alguns petiscos. Segundo Susana este é um espaço que tem uma magia especial, permite a quem os visita provar a cerveja no local onde ela é feita. “Ainda estamos nos primórdios da cultura cervejeira em Portugal, a dar os primeiros passos e penso que este espaço é super importante para dar vitalidade e energia a esta cultura. Temos 12 torneiras com as nossas cervejas habituais que já são possíveis de encontrar nos pontos de venda fora daqui e depois temos outras cervejas de que fazemos lotes mais pequenos, edições especiais. ” afirma Susana.

A Tap Room da Dois Corvos não é Local de passagem, quem vai à Rua Capitão Leitão vai porque quer ir provar cervejas in loco ou encher o ser growler para levar para casa. Também por isso o aparecimento de outras cervejeiras no bairro é importante, porque o apaixonado pela cerveja artesanal é alguém que gosta de experimentar, de novidades e por isso a diversidade atrai pessoas e beneficia a todos. Há por isso sinergias entre as três cervejeiras. Segundo Susana Cascais estão “a tentar por de pé algo chamado Lisbon Beer District, para promover a cerveja artesanal especificamente produzida em Marvila e penso que há espaço para nos organizarmos à semelhança do que acontece noutras cidades. Londres tem uma Beer Mile, por exemplo. É algo que trás pessoas e dinamismo, troca de informação” Sublinha que ainda estão a fermentar a ideia, poderá passar por um grande evento, por um roteiro entre as cervejeiras. Será certamente algo a acontecer ainda este ano.

 

Musa

Visitámos uma Musa que estava ainda a acomodar-se no seu nova espaço na Rua do Açúcar. Espaço que será fabrica e Tap Room num antigo armazém que foi resgatado à ruína e a uma carpintaria ilegal.  

Fomos recebidos por Nuno Melo que nos contou a viagem de carro que fez do Porto com o amigo Bruno Carrilho e que os levou a criar o projeto. Porque Musa? Porque no fundo é inspirador esta transição para um mundo novo, é uma porta que se abre para lá de uma realidade bicéfala onde só existem duas opções de cerveja para um mundo de estilos e sabores diferentes. “A Musa é algo que inspira alguém a conhecer outras coisas. Foi o que nos levou a este nome, além disso, e admito que foi uma feliz coincidência, musa está na etimologia da palavra música, que é algo que nos identifica muito enquanto equipa, a marca tem evoluído mais em volta desse conceito, basta ver os nomes das cervejas.” contou-nos Nuno Melo, explicando que “desde início queríamos que as cervejas tivessem uma personalidade própria, se não terias a Musa Ipa, a Musa Ale e perderíamos a tal diversidade que queríamos apresentar. Então tens cervejas com nomes como Red Zeppelin Ale e Mick Lager que são claras referências ao mundo da música.”

Nuno Melo foi claro no que os trouxe até Marvila “Não vale a pena inventar uma história inspiracional e glamorosa sobre o que nos trouxe para cá, poderíamos ter ido para muitos outros sítios. Há uma razão para não estarmos mais centrais, claramente o preço das rendas, mas não queríamos ir para mais longe, queríamos estar próximos das pessoas porque é essa a cultura da cerveja e na verdade em Lisboa era este o sítio que oferecia essas condições.”

O charme dos edifícios, as rendas mais baixas e esse lado mais de vanguarda que já se sentia no zona com a instalação de produtoras de vídeo, cinema, design também indicavam a tendência de que Marvila iria ser um bairro em que fazia sentido um empresa como a Musa estar.

Segundo Nuno Melo não se instalaram em Marvila porque a Dois Corvos já ali estava, e nem será essa a motivação de quem vem a seguir, mas o facto é que é um feliz coincidência e que neste momento Marvila é quase um cluster de cerveja artesanal. “Eu até gostava que aparecessem mais, isto poderia passar a ser um destino em que as pessoas vinham para experimentar cervejas diferentes e ter contato com os produtores.” Sublinha Nuno confidenciou-nos que “já temos falado sobre isto e já promovemos o Lisbon Beer District como tal”.

A fábrica da Musa vai ser também Tap Room, com espaço para provar cervejas da Musa e outras num ambiente muito próximo da produção. Um projeto que estará finalizado mais para o fim do maio.

 

Lince

 

O projeto Lince começou por ser um hobby caseiro de António Carriço e Pedro Vieira, que começaram a fazer cerveja em casa com baldes de 5L. A brincadeira cresceu e a Lince materializou-se no início do verão do ano passado num armazém da antiga fábrica de fósforos da Rua do Açúcar. O projeto é recente e colocou na rua uma referência, a cerveja Lince que é uma Belgian Pale Ale, uma cerveja de estilo belga que a António Carriço descreve como “fácil de beber, é uma cerveja muito diferente das cervejas industriais que conhecemos, mas ao mesmo tempo não é muito agressiva” o que torna esta Lince numa cerveja que abre a porta ao mundo das cervejas para os leigos na matéria.

A equipa pretende colocar três novas referências no mercado ainda este ano, todas elas sob o nome Lince, que é inspirado no Lince Ibérico, animal endógeno da Península Ibérica e que está em vias de extinção. É compromisso da equipa doar parte dos lucros para o programa de proteção destes animais.

Quando pensaram em montar a fábrica procuraram por Lisboa até encontrarem em Marvila as condições ideias para o fazerem. Uma zona com armazéns, aliás muitos deles antigos armazéns de vinho cujo ambiente parecia propício à produção de cerveja. O espaço que ocupam faz parte de uma antiga fábrica de fósforos que se transformou numa espécie de condomínio de empresas. A Lince é produzida paredes meias com uma fábrica de Ginginha e com uma empresa de aluguer de roupa para filmes e televisão. “Marvila por si é uma zona muito interessante, todo este ambiente de armazéns e fábricas antigas, este ar decadente, ao mesmo tempo que há cultura, galerias de arte, dois teatros, penso que irá crescer nos próximos anos.” confidenciou António Carriço quando visitamos o espaço de produção da cerveja Lince, uma pequena unidade fabril imaculada, com o seu espaço de produção e escritório numa mezzanine. “Para produzirmos cerveja temos de estar num ambiente industrial, não pode ser no meio de um bairro residencial, por isso para nós este é o sítio ideal porque queríamos estar dentro da cidade de Lisboa.”

O espaço da Lince não tem Tap Room nem espaço para o fazer, no entanto está no planos da equipa abrir um espaço dedicado à cerveja artesanal que tenha essa valência, de preferência em Marvila.

Quanto à proximidade com outras cervejas António refere que,  “A cultura de cerveja é uma cultura urbana, de jovens que gostam de experimentar coisas, entre cervejeiros há um ambiente de cooperação e entreajuda que não se encontra noutros sectores. Encontramos-se muitas vezes sem se combinar, trocamos informações, já aconteceu um cervejeiro desenrascar outro porque falta um ingrediente da receita. Há concorrência, claro, mas há muita cooperação.”

É natural portanto para a equipa da Lince o surgimento desta ideia da Lisbon Beer District, que segundo António Carriço se irá materializar num evento capaz de afirmar Marvila como o ponto de referência para a cerveja artesanal em Lisboa. Há ideias em cima da mesa e muita vontade para a concretização.

 

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