Drinks Diary: O que significa para ti o “Dia da Mulher”?    

Para mim o “Dia da Mulher” significa um grito de liberdade e uma afirmação de igualdade perante os homens. Assim, o “Dia da Mulher” deve ser um dia de homenagem às mulheres que caíram pela luta dos seus direitos, pela igualdade e pela liberdade. Deve ser um dia de alegria pelas vitórias já conseguidas pelas mulheres. Mas deve ser ainda um dia de reflexão com vista a encontrar os melhores caminhos de emancipação da mulher, neste mundo que teima secundarizá-la, e a impede de afirmar-se em pé de igualdade perante o outro ser humano que existe e em nada superior a si: O homem.

Drinks Diary: É quase um cliché dizer que o Bar é um “Mundo de Homens”, mas os números não mentem e as mulheres continuam a ser uma minoria. Porque achas que isso acontece?

Não eram só os bares que eram mundo dos homens. Tudo o que era emprego era mundo dos homens. Casa era mundo das mulheres. Homens e mulheres viviam em mundos diferentes. Mas a 2ª. Revolução Industrial, antes da 1ª. Guerra Mundial, veio criar uma situação nova. Os homens disponíveis não chegavam para as fábricas trabalharem em pleno. Era preciso mais mão de obra. E foram buscar as mulheres para as fábricas onde trabalhavam em condições piores que as dos homens, mais horas que os homens e com salários inferiores aos homens. E foi aqui, face a esta vida desgraçada, que as mulheres tomaram consciência da sua condição de escravas. Mas também foi por isso que começou a sua luta pela emancipação. E, então, a partir do princípio do século passado, nós começamos a ver as mulheres a saírem de casa e a frequentarem as escolas, as universidades, as empresas e a terem  aquelas profissões que se pensava que uma mulher nunca poderia ter: engenheira, juíza, polícia, cirurgiã, advogada e……….. Bartender.

É certo que na profissão de Bartender as mulheres ainda são uma minoria, mas pelas razões que atrás referi, pelo facto de haver mais centros de formação e principalmente pelo facto de nos bares cada vez mais se misturarem e criarem sabores, estou em crer que as mulheres cada vez mais, serão chamadas a trabalhar nos bares, porque criar e misturar sabores será um trabalho que as mulheres podem fazer de igual para igual.

Drinks Diary: Já te aconteceu alguma situação caricata atrás do bar, que aches que não tinha acontecido se fosses um homem?

Não. Nunca aconteceu. Penso que isso se deve a dois factores que considero fundamentais num Bartender: Respeito pelos clientes e profissionalismo em tudo que se diz e faz.

Drinks Diary: Ser mulher e trabalhar “na noite” existe ou não estigma social em relação a isso?

Penso que uma mulher trabalhar “na noite” já não é nenhum estigma social.  Hoje, ao contrário do século passado, maioritariamente, as pessoas pensam que uma mulher que trabalha de noite, é uma mulher livre, independente e sem receios de enfrentar a vida. A mulher não tem de ter medo de trabalhar na noite a desempenhar funções de bartender ou qualquer outra profissão que o exija. Tem sim, de fazer o que gosta. Penso até, que se houver mais mulheres a trabalhar, as noites serão ainda mais seguras, mais alegres e divertidas, porque nós mulheres criamos tudo de bom à nossa volta.

Drinks Diary: Enquanto profissional sentes que és valorizada pelos teus pares?

Sinto que sou valorizada, quer pelos meus pares, quer pela administração, quer pelos clientes. Constato que tem respeito e, até, admiração, pela qualidade do meu trabalho e pelo meu profissionalismo.

Drinks Diary: Como é que o “Mundo do Bar” surgiu na tua vida?

Surgiu com um part time para melhorar a minha situação económica. Depois, como gostei do contato direto com as pessoas, fiquei e passei a full time. É evidente que esta opção me obrigou a aprender muito com quem trabalhava, a ler muito e a frequentar acções de formação, de forma a aprender, aperfeiçoar e a acompanhar as  novas tendências. Depois é como tudo na vida: “usa e serás mestre”.

Drinks Diary: Na tua opinião, de que forma é que a indústria das bebidas pode tornar-se mais inclusiva para as mulheres?

Hoje, por força das circunstâncias a indústria das bebidas vai sendo cada vez mais inclusiva para as mulheres. Em primeiro lugar porque os proprietários dos bares, hoje, mais inteligentes que ontem, já perceberam que uma mulher, quando quer, é tanto ou mais profissional que o homem. Depois também perceberam que o turismo teve um enorme incremento e vai continuar a ter, é preciso que mão de obra feminina passe para trás do balcão e que seja qualificada. Creio que os proprietários devem apostar na formação da sua equipa e ajuda-los a crescer incentivando a serem melhores. Cada vez mais encontramos as mulheres a abraçar qualquer profissão, desde que o seu trabalho seja reconhecido, justamente remunerado e mantenha a sua dignidade imaculada. É também por estas razões que continuo apaixonada como bartender.

Drinks Diary: Nos locais onde trabalhas costuma haver celebração do Dia da Mulher?

Sim. Celebramos com um cocktail em honra das mulheres que lutaram e lutam pela emancipação das mulheres e fazemos um “mimo” a todas as colaboradoras do Intercontinental Hotel.

 

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