Comemora-se hoje mais um dia Internacional da Mulher. A data de 8 de março não é consensual, nem o são os factos que deram origem a este dia. Mas o dia 8 de março, embora muitas vezes nos seja apresentado com um sentido destorcido, é um dia de reflexão. Um dia em que todos, Homens e Mulheres se devem debruçar sobre as condições de vida e trabalho de todos, sobre questões como igualdade de género, segurança, direitos de todos enquanto cidadãos do mundo.

Se no início do século XX as questões prendiam-se com o direito ao voto para a mulher, e depois nos anos 60 se reclamou a igualdade nos comportamentos, hoje em dia nas sociedades ocidentais continuamos a debater a igualdade no trabalho, a divisão das tarefas ou a equiparação dos salários.

Mas sítios há no mundo onde as questões que se relacionam com as Mulheres são mais profundas. Relacionam-se com o direito de escolha, com a violência ou com a segurança. Sítios há no mundo em que ser Mulher não é algo natural, é uma condição. Na maior parte das vezes muito má.

Felizmente vivemos em Portugal e o papel da Mulher é hoje muito diferente. No entanto, há setores que continuam a ser maioritariamente masculinos. Olhando para a indústria de bebidas, verificamos que os números não são equilibrados e que há muito mais Bartenders do que Barmaids. Há mais homens atrás do balcão, mais homens nas competições, mais homens a representarem marcas. Questionamo-nos porquê e fomos ouvir duas mulheres que fazem do bar o seu trabalho, Carole Coelho e Darcília Silva.

 

Carole Coelho 

carolecoelho-compressorQuais são as dificuldades que uma mulher encontra nestas profissões, dificuldades que não se colocam a um homem?

Continuamos a debater-nos com o estigma de a Mulher ser um elemento mais fraco, temos de provar mais afincadamente as nossas competências e conhecimento.  Infelizmente, na minha opinião, ainda há clientes que vêm a Barmaid como uma miúda gira que está a servir uns copos.

É socialmente aceite a profissão de Barmaid?

Agora sim, o mundo do Bar em Portugal está a evoluir bastante, e esta profissão começa a ser socialmente aceite. Até então era vista como emprego de part -time e sem possibilidade de progressão.

Os clientes reagem da mesma maneira a uma mulher?

Não! E que não redondo. Há clientes que acham que não temos formação e apenas estamos a servir uns copos e vêm com teorias sobre destilados e bebidas, a dizer barbaridades e depois há clientes que acham que podem ‘abusar’ e mandam piadas e bocas que não lembra a ninguém. Isto porque acham que podem tentar a ‘sorte’ com a Barmaid. Penso que continua a existir o estigma da Barmaid ser uma mulher ‘fácil’. O Homem continua a ser mais respeitado.

A sensibilidade e a criatividade que se atribui ás mulheres ajudam-nas a preparar melhores cocktails?

Eu penso que sim, apesar de que os homens também são criativos e sensíveis, contudo as Mulheres dão sempre o seu toque especial aos seus cocktails. O nosso sexto sentido também se aplica na preparação das bebidas.

O trabalho noturno dificulta mais a vida de uma mulher nos outros papeis que esta tem de desempenhar: mãe, esposa, etc.?

Dificulta… dorme-se menos! Eu como mãe tenho de gerir a carreira e a vida familiar, e ás vezes torna-se complicado. Mas arranja-se sempre tempo para tudo. Quando se faz o que se ama, arranjamos forma de nos ‘clonarmos’ e reinventar os horários.

 

Darcília Silva 

darciliasilvaQuais são as dificuldades que uma mulher encontra nestas profissões, dificuldades que não se colocam a um homem? 

Penso que a principal dificuldade será a pressão que uma mulher pode sentir por estar a desempenhar uma função maioritariamente de homens. Por seres mulher, acabas por ser vista como um elo mais fraco. Precisas de ter uma personalidade forte e saber lidar com essa pressão.

É socialmente aceite a profissão de Barmaid?

Atualmente, a mentalidade da sociedade em que hoje vivemos já mudou um bocadinho. Há uns anos atrás, seres mulher e dizeres que eras Barmaid, era mal visto, faziam-te juízos de valor só porque trabalhavas atrás do balcão, trabalhavas na noite e, claro está, eras mulher. Hoje em dia, isso já mudou. Já existem mais mulheres a desempenhar a função, já não existe aquela distinção de trabalho masculino de trabalho feminino. É trabalho, ponto, seja ele qual for. E somos tão capazes de estar atrás do balcão como os homens.

Os clientes reagem da mesma maneira a uma mulher?

Não, de todo. Uma mulher atrás do balcão chama muito mais à atenção. Temos outra postura, outra sensibilidade e outro modo de cativar, tanto o cliente do sexo masculino como do sexo feminino.

No entanto, quando há clientes com estado alcoólico mais agravado, por ser mulher, a reação por parte desses já não vai ser talvez tão boa, para nós mulheres. Acabam por achar que se é mais frágil, daí a personalidade ter que ser bem vincada e há que saber dar a volta nessas situações.

A sensibilidade e a criatividade que se atribui ás mulheres ajudam-nas a preparar melhores cocktails?

Isso depende muito da capacidade de desempenhar a função. Ou és bom ou não és. Não digo que a sensibilidade e a criatividade não faça parte do papel de ser boa Barmaid e de ajudar na preparação de cocktails, mas tens de gostar mesmo do que fazes e a tua personalidade ajuda-te a mostrar isso no cocktail e na imagem que queres passar para o exterior. É a tua identidade.

O trabalho noturno dificulta mais a vida de uma mulher nos outros papeis que esta tem de desempenhar: mãe, esposa, etc.?

Não posso falar muito nesse aspeto. Não sou casada, nem sou mãe. Mas no que toca a isso, acredito que talvez não seja muito fácil teres as tuas responsabilidades familiares. Ou se tem pessoas ao nosso lado que efetivamente compreendem o teu gosto pelo bar e te ajudam, ou então não terás uma vida pessoal propriamente fácil, pelo menos nesse aspeto.

PARTILHARShare on FacebookTweet about this on Twitter