Quando em 2004 acompanhei, através das notícias, a fusão da belga Interbrew com a brasileira AmBev, lembro-me de ter ficado espantado com a empresa colossal que daí resultou. De um lado, um conglomerado europeu, que no seu portefólio detinha marcas tão distintas como a Stella Artois, Hoegaarden, Leffe, Staropramen, Beck’s ou Labatt (esta última resultante da aquisição, em 1995, da maior companhia canadiana de cerveja, a Labatt Brewing Company); do outro, a controversa AmBev, que resultou da junção das duas maiores empresas cervejeiras do Brasil: a Brahma e a Antárctica, situação que gerou muita contestação a nível do CADE – Conselho Administrativo de Defesa Económica, que analisou as questões de concorrência e de domínio do mercado.

Por essa altura, poucas pessoas imaginariam que a empresa daí resultante, a InBev, faria uma proposta hostil de compra da Anheuser-Busch (AB), em 2008. E quem era a AB? Simplesmente a maior companhia norte-americana de cerveja, detentora das marcas líder de mercado Bud e Bud Light. Também essa aquisição foi autorizada, resultando desse negócio a Anheuser-Busch Inbev (ABI), conglomerado que chegou a deter uma quota de mercado a nível mundial de 22% e cerca de 50% do mercado norte-americano.

Mas se as agências anti-trust não impediram nenhuma destas transações, porque não subir ainda mais a parada? Dito e feito: em outubro de 2016 a ABI adquiriu a SABMiller, o que é equivalente a dizer-se que a maior companhia cervejeira do mundo adquiriu a segunda maior. Quota do mercado mundial de cerveja daí resultante? Mais de 30%.

E para o consumidor, o que resulta destes milhões de dólares trocados de bolso e em bolsa? Nada muito significativo, aparentemente. O que interessa se a Sagres é detida a 100% pela Heineken ou que a Super Bock tem uma avultada participação da Carlsberg? Mas veremos que não é bem assim.

Temos de recuar cerca de 50 anos para perceber como e porquê se iniciou o movimento de renascimento da verdadeira cerveja, encorpado nas atividades da CAMRA – Campaign For Real Ale, dinâmica essa que rapidamente se propagou aos EUA. Antes de 1970, existiam apenas algumas empresas gigantes a nível mundial, que vendiam produtos indiferenciados, industriais, sem alma ou aroma/sabor. Foi o auge da produção de cerveja em massa, igual aqui ou na China, sem atenção à origem, às matérias-primas, às potencialidades do próprio produto cerveja. A revolução craft beer veio alterar mentalidades, permitindo o aparecimento de pequenos novos produtores, que apostaram em receitas antigas, em inovação, em preocupação com o que ofereciam ao consumidor. Essa sublevação dos apreciadores de cerveja faz com que, por exemplo, existam hoje em dia mais de 1500 pequenas cervejeiras só no Reino Unido.

Pode então o movimento craft beer coexistir com as aquisições mastodônticas descritas no primeiro parágrafo? Tudo parece indicar que sim, fruto do contínuo crescimento da quota de mercado das cervejas artesanais e do cada vez maior número de micro cervejeiras que aparecem ano após ano, como tem sido o caso de Portugal. Não obstante, têm despontado sinais preocupantes neste mercado, para os quais é indispensável estar atento.

Assinale-se, a título de modelo, as consecutivas aquisições que a ABI tem feito de pequenas produtoras de cerveja artesanal, começando pela Goose Island, em 2012, e continuando com a Blue Point, a 10 Barrel, a Elysian, a Golden Road, a Four Peaks, a Breckenridge, a Devils Backbone e a Karbach. Já este ano, a ABI oficializou a compra da Wicked Weed. A reacção da comunidade craft beer não se fez esperar: a North Carolina Brewer’s Guild removeu à Wicked Weed os direitos de voto dentro da organização; a Jester King e a Black Project Spontaneous and Wild Ales cancelaram colaborações que tinham com a companhia; muitas lojas de cerveja artesanal nos EUA cancelaram encomendas que tinham de produtos da Wicked Weed; e, apenas mais um exemplo, cerca de 50 micro cervejeiras anularam a sua participação no Funkatorium Invitational, um festival de cervejas Sour promovido pela Wicked Weed e com objetivos de solidariedade social.

Estas aquisições podem entristecer a comunidade craft beer mas, por si, não representam uma ameaça por aí além. Por cada Wicked Weed que desapareça, surgem dez ou cinquenta novas micros com o verdadeiro espírito artesanal. Porém, a movimentação da ABI não se tem ficado por aí e outras ações geram forte apreensão, se vistas como um projeto global de dominância. Como interpretar, assim, a limitação de compra de quase todo o lúpulo proveniente da África do Sul, que agora parece destinado exclusivamente às marcas “artesanais” da empresa? Ou a aquisição de uma pequena percentagem, através de uma sua participação, no maior site de avaliação de cervejas do mundo, o Ratebeer, onde milhões de curiosos, apreciadores, geeks da cerveja e outros se deliciam a avaliar as cervejas que vão bebendo? Um site que avalia cervejas a ser parcialmente comprado por uma empresa que detém centenas de marcas?

O mercado das cervejas está em ebulição e cabe ao consumidor perceber se está a beber cerveja artesanal ou cerveja que se diz artesanal.

 

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