Texto típico de final de ano: um balanço aos doze meses de 2016 e a tentativa de adivinhação do que poderá ser a evolução do mercado cervejeiro em Portugal no próximo ano.

Durante o corrente ano tivemos muitas e boas novidades que fizeram avançar fortemente a cultura cervejeira no nosso país e mantiveram a cerveja artesanal no ouvido – e no copo – dos portugueses. Destacaria, em primeiro lugar, o contínuo crescimento do número de marcas de cervejas artesanais nacionais, as quais lançam cada vez mais e melhores produtos para o mercado, com maior consistência e qualidade. Ainda surge, de quando em vez, aquele produto menos conseguido, que cada vez mais terá de ser extirpado pelo próprio cervejeiro à saída da produção. Mas a evolução foi muito positiva e certamente a tendência manter-se-á no próximo ano.

Também a nível dos festivais cervejeiros a progressão foi deveras interessante, com o ArtBeerFest Caminha a cimentar-se de ano para ano como uma referência nacional e internacional, muito bem acompanhado por um conjunto de outros eventos que têm ajudado, e muito, ao crescimento do interesse do consumidor menos atento pelo produto cerveja artesanal, casos do Provart, Pátio da Cerveja (excelente escolha do novo local), AZ Beer ou PortoBeerFest. Ainda assim, a proliferação de novos eventos, em função do destaque que a cerveja artesanal está a ter em Portugal, tem de levar obrigatoriamente a uma melhoria nos critérios de selecção da parte de quem produz. Se a comunidade cervejeira no seu todo pugna sempre pelo aumento da qualidade, não é pois lícito ou compreensível a existência de determinados eventos ou a participação de marcas de cerveja artesanal nesse tipo de acontecimentos. Projetos desenhados em cima do joelho e sem estruturação não merecem complacência e tal como as más cervejas estão condenados ao desaparecimento.

No corrente ano foi igualmente muito satisfatório verificar a contínua internacionalização das cervejas artesanais portuguesas, seja através da participação em festivais – exemplos do EuroHop Roma Beer Festival ou do Malmo Brewing Co & Taproom, das cervejas colaborativas realizadas com reconhecidas companhias de outros países ou a mera venda dos nossos produtos em lojas estrangeiras online especializadas em cerveja. Desejo para 2017? Que cada vez mais seja possível encontrar as nossas cervejas nos melhores pubs e bares do mundo, seja em formato garrafa ou à pressão. Já me estou a imaginar a ir ao Fábrica Maravillas, ao In de Wildeman ou ao Cask Pub & Kitchen e poder pedir, por hipótese, uma Passarola, uma Aroeira, uma Mean Sardine ou uma Maldita, observando ao mesmo tempo o prazer com que os frequentadores desses espaços bebem as nossas cervejas.

Outros eventos, para além dos festivais, merecem naturalmente destaque: o primeiro IBEERian Awards, competição cervejeira ibérica realizada em Aveiro; o IV Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais, que decorreu em 3 reconhecidos espaços cervejeiros de Lisboa; o Letra Harvest Fest, que pretendeu criar uma festa cervejeira em torno da colheita do nosso lúpulo; ou ainda o curso de Sommelier de Cerveja, com a chancela da prestigiada Doemens e que decorreu na Zymology Craft Beer Shop, em Lisboa. Não é possível enumerar todos, mas estes servem de exemplo para o esforço que toda a comunidade cervejeira tem feito de modo a formar pessoas e divulgar a cultura subjacente a esta nobre bebida.

E as tendências mais fortes para 2017? É sempre difícil prever o que os nossos cervejeiros vão fazer ou como o mercado consumidor vai evoluir mas aqui ficam algumas ideias (que também podem ser vistas como desejos):

  • Um reforço na oferta de cervejas da família Lager. India Pale Ale (IPA) são fantásticas mas não é possível continuarmos de costas voltadas para estilos como Vienna, Maibock ou Schwarzbier. E Pilsner, principalmente Pilsner!
  • “Beers gone wild!”. Certamente que haverá um reforço na oferta de cervejas nacionais envelhecidas em barris de madeira ou que são inoculadas com bactérias como lactobacillus ou pediococcus e a nossa conhecida levedura “selvagem” brettanomyces.
  • Dry-hopped IPAs? Fantástico! Sabores cítricos, tropicais, pungentes e marcantes. Mas o mercado está inundado destas cervejas pelo que o próximo passo talvez sejam as dry-hopped Sour. Esperam-se novas Berliner Weiss, Gose e afins no próximo ano.
  • Produtos típicos nacionais. É uma tendência que já ocorre e que, na minha opinião, poderá marcar os próximos anos. Já há cervejeiros a utilizar produtos característicos regionais, casos da alfarroba, bolota ou cereja. Talvez não se chegue a um estilo de cerveja português, mas a junção de vinho, a adição de lúpulos cultivados em Portugal ou cervejas que estagiam em barris de bebidas espirituosas nacionais, casos de vinho da Madeira, do Porto ou “Lourinhac”, definirá certamente um nicho em evolução nos próximos tempos.

Independentemente do caminho que os nossos cervejeiros e o mercado nos leve, o certo é que a cerveja artesanal continuará a sua evolução, a conquistar continuamente novos consumidores.

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