Sou Bartender profissional, tenho mais de 33 anos de experiência e passei por vários países, dos quais não posso deixar de destacar os E.U.A., o Reino Unido a Itália ou a Rússia. Mas os primeiros passos que dei na profissão aprendi com um estrangeiro que me passou os valores que até hoje mantenho: postura, atitude, humildade e skills de vendedor. Quando comecei já tinha arm bands, uma camisa azul turquesa e umas calças verde. Atenção, o meu professor era americano e já tinha dado a volta ao mundo! Montou um bar no Carvoeiro, um lugar muito à frente, nessa altura eu propunha e vendia margaritas com Cuervo Gold e Grand Marnier, já punha um chapéu mexicano e ia à mesa levar as margaritas, estávamos em 1980!

Eu não tinha ideia do que era bar é já fazia Flair, quando estive na Inglaterra tirei um curso de bar numa escola local a Bass Bartending School, cruzei-me com o Flair Bartending profissional entre 1989 e 1990, foi aí que conheci e trabalhei para a TGI Friday’s – prestigiada cadeia americana com mais de 800 bares por todo o mundo!

Na Friday’s tínhamos Flair Tending profissional, tínhamos 300 Cocktails na carta que já tinha mixologia avançada, coisas como manteiga de cravo da índia para fazer um “Hot Butter Rum“ ou o “Frozen Banana Alexander“ com gelado. Fazíamos o Old Fashioned ao estilo americano e no exame de Master Bartender tínhamos de saber quantos eram, quais os nomes e proveniências de todos os ingredientes do Gin Bombay Sapphire!

Era necessária muita atitude, um grande sorriso no rosto, porque para além do conhecimento tínhamos de conseguir vender aqueles Cocktails todos com movimentos de Flair Profissional.

Mas atenção, Flair Bartenders e Bartenders em geral, Flair é uma coisa muito séria, tão séria que exige ser estudado, entendido e praticado, não é a brincadeira das garrafas que vocês pensam.

Voltei para Portugal em 1998 pela altura da Expo e trouxe a arte do Bartending, com a especialização do Flair Bartending Profissional, uma área que é o Freestyle Bartending que pode ser considerada dentro do Flair como uma técnica mais livre, mais descontraída, mas que tem a ver com regras, técnicas e conhecimento sobre as matérias de bar.

Posso dizer que trouxe essa técnica para Portugal porque até então era desconhecida, ou conhecida através de alguns filmes, mas não havia ninguém a trabalhá-la no ativo. A partir de  1994 tive várias experiências enquanto formador da área na europa  e no ano 2000 decidi criar uma escola em Portugal, que se chama Cocktail Academy Portugal by Paulo Ramos, na qual decidi desenvolver programas de formação nesta área.

A minha perspetiva sobre o Flair é profissional e levada ao extremo porque eu fui educado no sistema americano e com uma ótica diferente daquela que talvez aqui, ainda hoje em dia se vive, que é a descoordenação de pensar que o Flair Bartending é um circo e lançar garrafas no ar.

Para mim o Flair estará sempre presente no bar, o primeiro movimento de Flair é um sorriso, um “welcome” ao cliente. Se estamos num hotel de cinco estrelas ou num bar da esquina, tanto um como outro merecem respeito e merecem conhecimento profissional. O Freestyle Bartending tem a ver com Bartending em primeiro lugar, e Bartending é servir bebidas a clientes e temos de ter essa noção, acho que muita gente se esqueceu disso, inclusivamente alguns alunos que eu formei.

Temos de ser Bartenders no real sentido da palavra e depois juntar essa parte de entretenimento, que é o que significa o Flair, claramente um entretenimento com objetos e utensílios de bar e com esse famoso sorriso sempre na face. Isso é o Flair Bartending.

A minha experiência de mais de 32 anos de Bar diz-me que o cliente procura encontrar um “entertainer” no bar, e isso pode ser um truque de cartas ou uma aproximação com um sorriso e uma piada ou até ao movimento simples e básico de mexer um shaker ou uma garrafa e isso é que não foi bem interpretado. Hoje em dia pensa-se que o Flair é uma coisa demasiado técnica ou há uma linha muito tecnicista em que as pessoas exploram muito a complexidade dos movimentos, que sem dúvida são interessantes, mas na realidade, no ativo podem não ser tão aplicáveis.

O conceito que os americanos usam para o Working Flair, estamos a trabalhar e a movimentar os objetos, tem a ver com manobras e técnicas muito específicas, como o pouring que consiste em verter e medir com precisão entre outras coisas. Por isso eu alego que a minha escola é a autêntica escola de Bartenders Americana em Portugal porque é de lá que vieram os meus conhecimentos.

Qualquer pessoa pode fazer Flair desde que instruído para isso, depois a habilidade de cada um vai ditar o seu grau de participação. É importante definir que o Flair também tem a ver com a personalidade, com a encarnação de um espírito e de uma personagem. Há várias personagens que podem ser feitas no bar, Flair não significa quatro ou cinco garrafas a voar, significa uma performance e há que entender isso.  

Em Portugal a arte continua viva, principalmente através daqueles que fizeram os primeiros cursos comigo, pessoalmente, apercebi-me que as pessoas não têm noção de coisas básicas, então tive de retroceder um bocadinho e até  acalmar-me com o ensinamento do Flair porque vi que predominava a cópia do fulano que se via na internet, o show off, as pessoas deixaram-se levar por essa parte e esqueceram-se de ser Bartenders.

É por isso que existe uma escola. Eu sei que também há malta que faz duas manobras e pensa que já pode dar aulas, há uma parte pedagógica e essa parte não foi seguida por muitos, quiseram improvisar, fazer cursos e escolas quando não tinham estrutura e maturidade  pessoal suficiente para isso. Penso que devia haver respeito por quem trouxe isso para cá, pela entidade, mas o respeito no sentido de perceber que aquilo está certo, porque eu ainda estou para verificar no país quem é que veio do E.U.A. e trouxe isso a sério para Portugal. Portanto eu considero-me essa pessoa, pode parecer uma presunção, mas eu continuo a ser o pioneiro e a pessoa à frente nesta àrea e continuo a ir à América para trazer coisas para cá e continuo a bater na tecla de que eles têm de servir uma bebida e saber a receita e olhar para mim, depois se mandarem a garrafa ao ar, fantástico, mas têm de saber a receita, muitos deles não sabem.  Eu enquanto cliente só quero um Daiquiri e o Bartender tem de saber como esse Daiquiri é feito e olhar para o cliente com um sorriso e tem de perceber as receitas. Se mandar ao ar alguma coisa, o Daiquiri tem de ter lá x de lima, x de Rum e x de açúcar, a partir desse momento se não tiver a quantidade certa, se tiver espirrado para teto, primeiro estamos a sujar tudo, segundo a bebida pode estar descalibrada, já não é Bartending, já é um circo, uma brincadeira. Não cumpriu a função e isso faz com que a indústria e as marcas descredibilizem a atividade. Eu fiz um trabalho e lutei a vida toda para o contrário, sempre trabalhei com marcas, continuo a trabalhar à volta do mundo com esta profissão e com este estilo de Bartending. Ás vezes olho e penso comigo próprio, faço uma retrospectiva pessoal e eu não sou o Bartender das cinco garrafas no ar, eu sou “The Bartender com Flair Tecniques”  com o conhecimento do serviço, isto é que é importante.

Continuo ativo com a minha escola, contínuo ativo como Bartender, os cursos estão no mercado, tenho três escolas ativas no país, Lisboa, Porto e Algarve. No Porto com uma ligação enorme aos vinhos do Porto que são uma bandeira portuguesa muito importante a nível mundial e temos também que olhar para essa parte e desenvolver flair com as nossas garrafas. Os bartenders gostam muito das garrafas de Malibu para mandar ao ar, porque são práticas, mas nós temos de saber mandar ao ar uma garrafa de Beirão, de Singeverga ou de Amarguinha, essas são as primeiras em que temos de saber mexer, porque são nossas.

Claro que houve evolução na manipulação, hoje em dia já se fala em Craft Flair, um flair artesanal por assim dizer que não é mais que um flair básico, mais requintado, menos espampanante com alguns movimentos elegantes, mas os movimentos podem ser feitos todos com elegância, tem a ver com aquilo que se aprende.

Mas o que acho interessante é que mesmo na World Class e noutras competições mais atuais o flair está inerente a todos especialmente aos que realmente chegam ao top de uma maneira ou outra, “The Flair is there”.

A minha recomendação é só uma, façam um curso de bar antes de se meterem a contar histórias dos vossos home made syrups. A minha avó já me tinha ensinado um xarope fantástico para a tosse com cenouras e mel em 1970, só quando cheguei aos E.U.A. é que percebi como vender aquele xarope no mundo inteiro!

 

PARTILHARShare on FacebookTweet about this on Twitter