Pedro Rafael estudou Comunicação Social mas cedo percebeu que uma vida de escritório não o faria feliz, por isso mudou-se para Londres e iniciou uma carreira na indústria de bebidas que o levou a sítios tão diferentes como o Sri Lanka, as Maldivas, o Bahrain ou o Irão. Nos dias que correm vive e trabalha no Dubai, é General Manager dos bares do Mayta DIFC e Bar Operations Director para o Grupo Ginza.

O Dubai é um país de assimetrias e grandes desafios para a quem trabalha na indústria de bebidas, Pedro Rafael contou-nos nesta entrevista como é ser um Bartender português no Dubai.

Drinks Diary: Tiraste Comunicação Social no IADE e depois seguiste para Londres. Como é que a indústria de bebidas entrou na tua vida?

Depois de terminar a faculdade trabalhei em publicidade como Copy Writer, mas ”9 to 5” num escritório não era para mim. Sempre tive um grande interesse pela “night life” e em particular por cocktail bars. Assim que cheguei a Londres, devido a ter vários amigos já a trabalhar na indústria, foi fácil para mim encontrar trabalho, comecei como Junior Bartender num Jazz bar chamado Jazz After Dark em Soho, apaixonei-me pela indústria ainda mais, trabalhei muito, estudei, fiz muitos cursos, e rapidamente evoluí, não parei até hoje.

 

Drinks Diary: Já passaste por vários países, qual deles te marcou mais?

Felizmente, devido ao meu trabalho, trabalhei e vivi em Inglaterra, Dubai, Sri Lanka, Maldivas, Bahrain, Irão, Índia, cresci como profissional e aprendi algo em todos estes países, mas sem dúvida, Inglaterra é a minha segunda casa a seguir a Portugal. A cocktail scene em Londres está a um nível muito alto. Vivi em Londres na altura em que houve um grande boom na indústria, estavam lá os melhores bares do mundo e os melhores Bartenders também.

 

Drinks Diary: Londres foi o teu ponto de partida na indústria de bebidas, continua a ser a Meca do cocktail?

A nível pessoal ainda vejo Londres como a Meca da cocktail scene, mas vejo que Nova Iorque está a crescer outra vez, o Dead Rabbit, por exemplo,  já recebeu por duas vezes o prémio de melhor bar do mundo. Em Singapura temos EO, 28 Hong Kong Street e nos últimos dois anos houve também um grande crescimento na Europa como na Holanda, com o Vault bar onde estava o Wilson Pires ou na Dinamarca com o Curfew Bar com o Humberto Marques e o António Saldanha de Oliveira.

 

Drinks Diary: Como é trabalhar e viver no Dubai?

“Work Hard, Play Hard”! Numa cidade com 2.6 milhões de expats (emigrantes) onde o álcool só é permitido em estabelecimentos licenciados, é óbvio que a procura por diversão, bares, restaurantes e discotecas é muito alta,  por isso a oferta é muito grande e é muito competitiva. Trabalha-se muitas horas, mas os ordenados são bons, não se paga impostos, a empresa para onde trabalhas disponibiliza-te casa, transporte, alimentação, por isso a esse nível as pessoas têm uma boa qualidade de vida. Visto que há tanta oferta, a competição é muito grande, por isso o treino contínuo é muito importante para se progredir a nível profissional. Quando não estás a trabalhar o Dubai é uma cidade cheia de atrações, praias, bares, cinemas e visto que trabalhas um ambiente tão multicultural é fácil fazer amigos. Óbvio que há algumas regras que são às vezes difíceis de entender, mas vamos-nos habituando a elas.

 

Drinks Diary: Como descreverias a cultura de bar na cidade?

É uma bar scene muito grande com mais de 1500 restaurantes, 600 bares, 100 discotecas, a oferta é muito grande, os níveis e standards são muito altos, o que faz com que toda gente queira estar um passo à frente da competição. Em todo o lado há ofertas, happy hours, brunches, ladies night, cabin crew nights o que faz com que os clientes tenham ofertas para todo o tipo de carteiras, podes ir beber um cocktail por 50 AED que equivale a 12 euros na praia ou podes ir beber um cocktail, como eu fiz há dois anos num bar de hotel, no Noir Cocktail bar por 5500 AED que equivale a 1550 euros.

 

Drinks Diary: Quais são as características que um Bartender deve ter para conseguir crescer no Dubai?

Muita ética de trabalho, ser pro-ativo, estudar muito e frequentar as várias Masterclasses que acontecem por cá regularmente. Ter boa disposição, ter sempre um sorriso nos lábios, ter conhecimento de línguas é um “must”, não só o inglês. Estar atento ao que se passa no mundo a todos os níveis para poder ter argumentação para iniciar conversas com os clientes e mantê-las visto que o Dubai é uma cidade global.

 

Drinks Diary: Para além do teu trabalho enquanto General Manager do Mayta DIFC e Bar Operations Director para o Grupo Ginza, manténs uma empresa de consultoria há cerca de 10 anos, como se conciliam essas duas vertentes?

Com poucas horas de sono! A nível da consultoria hoje em dia, limito-me ao bar design e bar menu design, a nível da formação tenho pessoas que trabalham comigo para dar as Masterclasses e também para fazer turnos como guest bartender.

 

Drinks Diary: Para além destes dois papéis, ainda dás formação. Como é dar aulas no médio oriente, em que culturalmente as pessoas não estão tão abertas ao consumo de álcool?

O treino e fácil visto que toda a gente que atende os treinos trabalha na indústria, e tem um mínimo de conhecimento, o problema é na maior parte da vezes a barreira linguística e a própria mentalidade. Sendo europeu, nós somos educados de uma forma privilegiada em comparação com os colegas que nós temos cá da Índia, Filipinas, Paquistão, onde a qualidade de ensino da escola é baixa e a própria mentalidade é mais fechada.

 

Drinks Diary: Como vês a evolução da indústria de bebidas em Portugal?

Vejo uma evolução muito boa a todos os níveis, quando saí de Portugal havia um ou dois bares de cocktail, agora temos bares como o Red Frog, Cinco Lounge, entre outros. Temos Bartenders portugueses no melhores bares do mundo e nas melhores competições, o ensino está a um grande nível, e temos o Lisbon Bar Show, um dos melhores bar shows do mundo.

 

Drinks Diary: Faz parte dos teus planos voltar a trabalhar em Portugal?

Sim, penso voltar em dois anos e abrir um boutique hotel ao pé da praia, com um bom restaurante e cocktail bar.

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