Várias vezes durante a minha atividade me debati com esta questão: “Qual é a melhor coisa sobre o café especial?” Esqueço os métodos de brewing, os projetos inovadores e cheios de criatividade, ou as habilidades únicas de um Barista. É, sem dúvida a oportunidade de saborear o perfil único de sabor de cada café, algo que nos dá uma sensação de existir a possibilidade de um conhecimento que não se esgota.

E, embora haja excepções a cada estereótipo, diferentes países tendem a ter perfis diferentes. Os cafés etíopes são conhecidos pelas suas notas de flores e frutos, os Centro-americanos pela sua acidez brilhante e por exemplo mais especificamente os Brasileiros pelas suas notas de frutos secos. É por isso que a maioria das coffee shops pode oferecer uma grande variedade de origens ao seu cliente.

Seja essa variedade apresentada em forma de single origins, com torras de filtro e torras de espresso ou em forma de blends, onde se conjuga duas ou mais origens de forma a balancear os vários elementos como a doçura e a acidez, esta mesma oferta desperta em nós uma imensa curiosidade para provar o próximo café que chegará ao nosso roaster.

Mas nos países produtores de café, não é assim tão simples. Temos de considerar as implicações éticas e financeiras de oferecer cafés de outros países e não é uma decisão fácil de tomar, tendo nos últimos anos os mercados de café de especialidade nos países produtores tentado promover no mercado nacional os seus cafés de uma forma mais efectiva.

Experimentar a enorme variedade de perfis de café que existem, é um prazer mas ao mesmo tempo também é uma óptima ferramenta para a educação do consumidor.

Pode-se converter os consumidores para a especialidade e ajudá-los a desenvolver o seu paladar. Em um mercado com café quase queimado, de baixa qualidade ou instantâneo (como em muitos países produtores), isso é especialmente importante. O Brasil é sem duvida um caso gritante desta realidade.

O Brasil é o maior produtor de café do mundo mas ao mesmo tempo o seu mercado interno praticamente só consome café de má qualidade e torras elevadas. Todos os seus melhores cafés são vendidos para mercados externos com maior poderio económico, deixando assim um vazio de qualidade no mercado interno. Isso levou a que durante anos enquanto noutros países os clientes foram educados, no Brasil o consumidor apenas conheceu um mau produto e não viu potenciado a sua vontade de provar algo diferenciador. Felizmente existe neste momento uma corrente no sentido de mudar essa realidade.

No mundo do café não se olha a cor política, a cor partidária nem a valores de ordem religiosa, o que conta sim é a existência ou não de qualidade e quais as características de certo varietal, tendo sido influenciado pela altitude, qualidade do solo, clima e humidade. É neste misto de Simplicidade vs Complexidade que reside o fascínio que o café nos oferece, a possibilidade de todos os dias provar algo diferente. E mesmo os países produtores deveriam a provar outros cafés, afinal as diferenças entre um Castillo da Colômbia Huila e um Heirloom Etiópia Sidamo são frequentemente mais pronunciadas do que dois cafés da mesma região.

O momento em que o consumidor finalmente provar a diferença é capacitador. Ele ajuda o consumidor a amar o café, e também a ajuda a saborear as diferenças em cafés mais semelhantes. É mais fácil encontrar algo quando se sabe o que se está procurando.

No entanto, a maioria das lojas de café de especialidade nos países produtores só oferece os grãos de café locais. E há razões para isso. A logística é mais difícil, muitas vezes tornando os cafés mais caros e esses cafés podem vir com dilemas éticos. O que leva à pergunta, deverá um país produtor servir cafés de outros países?

De uma perspectiva do produtor local de café, essa resposta é não, dado que ele entende que deve ser o produto nacional a ser promovido. Da perspectiva de um Torrador local essa resposta é sim, porque a maior oferta de cafés possibilita a educação do consumidor e uma diferenciação da qualidade. Por fim, da perspectiva do consumidor, essa resposta é dada consoante os valores do mesmo, se for alguém proteccionista, deseja cafés nacionais, mas um verdadeiro amante do café não sente as bandeiras nacionais no café, sente sim paixão!

Eu encaro este artigo como uma oportunidade para reflexão sobre o papel que nossas escolhas de compra e consumo desempenham na indústria do café, bem como noutras indústrias. E independentemente da decisão que tomarmos, vamos nos lembrar que todo o café foi produzido por pessoas que trabalham desde o amanhecer ao pôr-do-sol para trazer esse perfil maravilhoso para a nossa taça.

 

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