O Simplesmente Vinho é o primeiro e único salão Off de Vinho em Portugal. Já vai na sua quinta edição e voltou a levar até ao Porto Vignerons de Portugal e Espanha para um mostra de vinhos simples e despojada. Um evento de proximidade entre quem visita e quem lá está para dar a conhecer aquilo que faz.

Mas o Vinho é apenas um pretexto para um evento que o encara como parte de um todo mais vasto, o mundo das sensações. Porque o Vinho é mais sentido quando se junta à comida e se partilha com os amigos. E será melhor ainda se o podemos vivenciar entre arte, música e poesia.

João Roseira é um dos impulsionadores do evento e foi ainda com as mangas arregaçadas, a acabar de arrumar as prateleiras do leilão para o dia a seguir que nos falou da origem do Simplesmente Vinho. Assim, sem grande programação, porque tal como o Vinho, também a vida é o momento.

Drinks Diary: O que é na essência o Simplesmente vinho?

João Roseira: Para nós, há cinco coisas muito importantes: Vinho, comida, arte, música, amigos. O trivial, a maridagem entre a comida e o vinho, tudo se torna mais sublime. Penso que a não ser nos filmes nenhum de nós abre uma garrafa de um grande vinho para beber sozinho, há partida há os amigos com quem partilhar. Nós fazemos este evento porque, olha à tua volta, tudo te vai saber melhor só por teres esta envolvente.

Drinks Diary: Como surgiu o Simplesmente Vinho?

João Roseira: O surgimento foi muito simples, não inventámos nada. Eu e o Mateus Nicolau de Almeida estávamos um dia num salão Off em França e olhamos um para o outro e perguntámos, mas porque é que em Portugal não se faz? E tão simples como isso, resolvemos fazer. Isto foi no mês de janeiro, fizemos o primeiro Simplesmente Vinho passadas três semanas, telefonando a pessoas e juntámos 13 produtores numa cave fantástica onde tivemos três anos.  Já não há um mercado de vinho, há muitos mercados, há muitos segmentos. Já não há paciência para coisas onde o metro quadrado custa uma brutalidade, quando podes fazer coisas simples, com uma barrica. Porque tens de inventar stands? E depois temos uma questão muito própria esta cultura do Off, tens um Luís Pato que vende milhões de garrafas e tens um produtor com um vinho que ainda nem rótulo tem, ainda nem existe e ambos têm o mesmo tratamento, é a mesma barrica, é a mesma exposição. Queríamos tratar as pessoas por igual. Depois gostamos de vinhos com uma certa rebeldia, já se está a tornar um bocado cliché e tem o valor que tem, mas gostamos de dizer que gostamos de vinho com um certa loucura e poesia. Nem toda a gente aqui é “biológica”, mas acreditamos que se tu ainda estás com dúvidas ou pensas que apenas se faz vinho com leveduras estares no meio desta gente pode ser positivo para ti, tenho esperança que nesta interação as pessoas comecem a fazer o vinho de uma forma menos tecnológica, mais natural, voltar um pouco às origens.

Drinks Diary: Este é o segundo ano que vão fazer algo semelhante em Barcelona, como surgiu essa oportunidade?

João Roseira: Dentro do nosso espírito há três coisas na Península Ibérica que para nós são mesmo fora de série, Emoción dos Viños em Tui, que é o António Portela e a Marina Cruz que fazem, nós e o Vinho ao Vivo dos Goliardos em Lisboa. E nós conhecemos a Malena Fabregat na Emoción dos Viños em Tui e ela na altura era uma espécie de Wine Activist, não estava no Trade, não vendia vinho mas estava presente porque tem um entusiasmo muito grande sobre o vinho e uma forma de ver as coisas algo semelhantes à nossa e que levou a que no ano passado ela nos tenha perguntado, mas porque não levamos isto para Barcelona? E fomos, no primeiro ano tínhamos como objetivo 500 visitantes, tivemos mais de 700, uma parte dos portugueses que foram connosco ao fim do primeiro dia já não tinham vinho para o segundo, correu relativamente bem e deu vontade de repetir e portanto, no primeiro fim-de-semana de março voltamos a Barcelona.

Drinks Diary: Quem são as pessoas que visitam o Simplesmente Vinho?

João Roseira: Ao início, quando começamos com esses 13 Vignerons podemos dizer que eram os nossos amigos e os amigos desses Vignerons. Pode parecer uma asneira o que vou dizer, mas na verdade o grupo de pessoas que gosta de vinho em Portugal é relativamente pequeno. Vais ao Vinho ao Vivo, vem aqui, vais às provas nas garrafeiras e percebes que vês o mesmo grupo de pessoas. O mundo do vinho não é um mundo isolado e eu acho que a crise económica de 2008 veio piorar muito este cenário. Havia uma série de gente nova que estava a começar a interessar-se, a gastar algum dinheiro em vinho e que de repente se viu limitada. Em Portugal falta-nos alguma cultura de “Caviste”, as pessoas são obrigadas a ir para a prateleira do supermercado ver onde é que está o vinho com 50% de desconto, que é como as pessoas hoje compram o vinho. Isto para dizer que ao inicio contávamos com esse público que se foi perdendo. Se deres uma volta ao evento percebes que temos um público um pouco até aos 50 anos e depois muita malta jovem, que não sei como olham para o vinho, mas creio que este sentimento de partilha é um ponto importante.

 

Drinks Diary: Este ano haverá um Leilão dentro do Simplesmente Vinho, qual é o seu propósito?

João Roseira: Isso foi uma maneira de comemorarmos os cinco anos, com toda a franqueza gostamos de festa e celebração, gostamos dessa partilha. Poderíamos ter feita uma jantarada, ou uma prova especial, com vinhos especiais, como muita gente faz. Mas voltamos à questão da simplicidade e de igualdade, temos obras de artistas reconhecidos e obras de pessoas quase anónimas e amanhã quando os lotes forem a leilão começam todos a 50€. Cada lote é uma peça de arte e vinho, e partem iguais porque é o empenho e a entrega que conta. Ao mesmo tempo temos uma vertente humana, de que adianta salvar o planeta se não temos pessoas? Vamos tentar ajudar de uma forma positiva algumas crianças de um bairro problemático do Porto, para que tenham uma oportunidade de estudar, fazer uma visita de estudo. Nas duas vertentes, e a segunda vai ser o ambiente, procuramos encontrar associações que não fossem já super conhecidas e onde o nosso contributo não vá fazer a diferença. Temos alguma preocupação ambiental, aqui no evento temos talheres e pratos biodegradáveis, não vão para reciclar, são combustáveis, não vês garrafas de plástico, usamos garrafas de vidro. Ao mesmo tempo na viticultura, por mais que tu queiras tu estragas e poluis e por isso estamos também a contribuir para uma associação do ambiente, numa tentativa de minimizar ou devolver alguma coisa do que estragamos.

Drinks Diary: Falaste-me há bocado dos cinco elementos, da comida, da arte, da música, dos amigos e do Vinho. No meio disto tudo, afinal qual é o melhor vinho?

Acredito que não há o melhor, não há o melhor restaurante, não há o melhor Vinho. Eu faço Vinho e a quantidade de vezes que tu dizes “fogo este vinho ontem soube-me tão bem e hoje…” O vinho não é algo estático. Mesmo esta questão das pontuações nas revistas, tem valor apenas se as pessoas compreenderem que é como uma fotografia que foi tirada naquele momento, não quer dizer que noutra semana, com outra comida, com outros amigos esse Vinho te vai saber igualmente bem. Não há o melhor Vinho, o Vinho é o momento, é isso!

 

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A quinta edição do Simplesmente Vinho aconteceu nos dias 24 e 25 de fevereiro, no Porto.

Aquele que é o único salão off português de vinhos, petiscos, arte e música mudou-se para o Cais Novo, na zona ribeirinha do Porto e juntou num mesmo espaço 84 produtores de vinhos de Portugal e Espanha, seis restaurantes de autor, música e arte. Desde o início que o evento se assume como uma manifestação de nicho, independente e alternativa.

Este ano recebeu cerca de 2600 visitantes, que para além da prova de vinhos e da exposição de arte ainda tiveram a oportunidade de assistir a espetáculos de artistas portugueses.

Este ano houve ainda o Leilão de Arte + Vinho, que conseguiu angariar cerca de 9000€ que revertem a favor de duas instituições, o Projeto Raiz que apoia crianças no Porto e o Centro de Documentação das Alternativas que se dedica às questões do ambiente.

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