Ser Sommelier ainda é uma atividade um pouco marginalizada, nem todos sabem o que faz um Sommelier ou Escanção, muitos acham que é alguém que apenas se encontra em hotéis e restaurantes demasiado caros e fora do alcance do cliente comum. E mesmo aqueles que já estão familiarizados com a figura do Sommelier por vezes tem dificuldade em abrir o espírito e entender o trabalho da harmonização, olhar para as escolhas como parte integrante de um todo, que pode tornar uma experiência gastronómica banal numa experiência plena e especial.

Em 2016 acredito que este é um cenário que terá tendência em mudar, facto para que muito contribuirá a adoção da figura do Sommelier por casas mais tradicionais cujas garrafeiras de respeito merecem a atenção de um profissional.

Enquanto Sommelier de um hotel de topo, onde tenho uma clientela diversificada portuguesa e internacional, tento estar atualizado em dois campos. Por um lado, aquilo que as pessoas procuram ano após ano e que me apontam caminhos para próxima temporada. Por outro, a prova constante de novos vinhos na procura de novas referências faz com que possa formular uma opinião sobre aquilo que são os vinhos que poderemos encontrar no mercado este ano.

É interessante ver que a subida de qualidade de pequenas regiões como a Bairrada e o Dão têm vindo a ter um impacto crescente na procura por parte dos que me procuram. O que é impressionante porque até há bem pouco tempo atrás ninguém consumia estas regiões. Pedia-se Alentejo e Douro, pouco mais.

Do que vi até agora este ano traz-nos bons vinhos destas regiões. Bons brancos do Dão, muito a reboque da excelente casta que é o encruzado e bons vinhos em geral da Bairrada. Este ano, a maioria dos vinhos que vamos encontrar no mercado são de 2014. Este foi um ano moderadamente quente. Vamos ter vinhos com bastante concentração e álcool. O que por exemplo, para estas duas regiões são boas notícias, pois são sempre um pouco mais frescas e a temperatura média um pouco mais alta confere-lhes mais estrutura.

Outra tendência que posso assinalar é a curiosidade crescente pelos vinhos velhos, com especial atenção para os vinhos brancos. A ideia geral de que os vinhos brancos deveriam ser consumidos jovens começa a dissipar-se e encontra-se já no mercado exemplos magníficos de vinhos estagiados em madeira e em garrafa por períodos mais longos, como entre outros, o Quinta dos Carvalhais Branco Especial que é um dos meus brancos favoritos.

Sou apreciador de vinhos velhos brancos, creio que a forma como os vinhos envelhecem e aguentam a passagem do tempo é o que nos mostra o seu caráter e notoriedade, tal como nos tintos, mas aromaticamente mais apelativos. O cliente cada vez procura mais a diferenciação. Talvez por isso Portugal esteja a ganhar protagonismo porque temos vinhos muito diferentes, uma versatilidade em termos de regiões, enologia e viticultura enorme em que se consegue colmatar tudo o que é pedido. Temos castas muito diferentes, microclimas muito distintos. Somos o país com mais vinhos fortificados, ou seja, com mais regiões que os conseguem produzir, aliás “nós” a par com os Britânicos inventámos os Fortificados. Temos uma panóplia de escolha muito grande.

E a tendência do cliente estrangeiro é a procura do vinho português e a do cliente português é explorar as regiões que antigamente não explorava tais como, a dos Açores, a do Algarve ou mesmo do a região do Tejo que sempre foi underdog e que neste momento está a emergir com alguns produtores de qualidade.

O facto é que em anos bons como em anos maus o importante é quem faz a alquimia na adega ou na vinha. Fazer bons vinhos em anos bons é fácil, fazer bons vinhos em maus anos é que é a coisa complicada e aí é que entra a mão do enólogo. Ai é que entra a alquimia, houve quem fizesse bons vinhos em 2012, 2013, ou 2009 que é um ano que eu pessoalmente não aprecio, um ano quente, um ano muito maduro, muito passa, muita concentração, muito álcool… Por isso quem fez bons vinhos nessa altura, fará em bons anos também. É aí é que se encontra a qualidade. Em 2016 não será diferente.

 

Artigo de opinião escrito por António Lopes Sommelier do Hotel Conrad para a primeira edição da Revista Drinks Diary.

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