Daniel Redondo Presidente da Direção da ANEBE- Associação Nacional de Empresas de Bebidas Espirituosas

Criada em no ano 2000 a ANEBE – Associação Nacional de Empresas de Bebidas Espirituosas junta as principais empresas do sector.

O trabalho que desenvolve tem em vista a valorização várias vertentes, com destaque para “o combate aos problemas de carácter social relacionados com o consumo excessivo ou inadequado de bebidas alcoólicas, assessoria à criação das leis e regulamentos aplicáveis ao sector e o apoio às autoridades competentes no sentido de travar a ilegalidade, a fraude e evasão fiscal e a concorrência desleal.”

A nova direção, eleita para cumprir um mandato que durará até 2018, é presidida por Daniel Redondo nome que reconhecemos como Diretor-geral da Licor Beirão, uma das marcas mais relevantes do sector em Portugal.

Os desafios para este mandato são muitos,  mas “a necessidade de unir e fortalecer o sector das bebidas espirituosas em Portugal e fomentar a capacidade exportadora da indústria aproveitando o facto de ser o produto alimentar mais exportado da Europa” foi o mote para a candidatura de Daniel Redondo ao cargo.

Drinks Diary: O que é para si, enquanto Presidente da Direção da ANEBE, a missão desta Associação?

A ANEBE enquanto plataforma nacional da indústria de bebidas espirituosas tem a missão primordial de dar voz coletiva aos valores e desafios do nosso setor perante a sociedade portuguesa. A matriz de missão da ANEBE prioriza a valorização do contributo e impacto da nossa indústria na economia nacional, a promoção de padrões de consumo moderado e inteligente, bem como o apoio aos inúmeros desafios diários dos nossos membros associados. Além das suas prioridades programáticas, encontramos na missão da ANEBE uma prioridade estrutural – o dever cívico de espelhar cada vez melhor perante o país a componente identitária da natureza desta indústria. Representamos um setor de empresários que privilegiam uma cultura de qualidade, originalidade e inovação nos seus produtos e marcas, alicerçada em tradições e raízes históricas das nossas regiões, das idiossincrasias do nosso povo e do nosso país. Todos os dias engarrafamos porções de cultura nacional. E como em qualquer setor de atividade, também no nosso é fundamental que a cultura regional e nacional que exportamos e introduzimos no consumo todos os dias, sejam melhor conhecidas pelos portugueses e pelo país.  

Drinks Diary: Tem um mandato de dois anos que se iniciou há pouco, quais são as metas que se propõe atingir?

A nova direção da ANEBE considera fundamental dar mais força e coesão à voz do setor das espirituosas em Portugal. Isto significa reforçar a representatividade da produção nacional com novos membros e novas marcas na ANEBE. Queremos fazer este caminho com todos, somando força à nossa voz, somando energia à nossa missão, acrescentando poder de intervenção à nossa ação. Já começámos esse caminho com a recente entrada na ANEBE de 10 novos membros, representantes de marcas e produtos tradicionais como os licores, a Ginja, Aguardente de Medronho ou a Aguardente Bagaceira, mas também com a adesão da nova geração de inovadores gins  nacionais de norte a sul. É esta variedade de escalas, marcas e produtos entre os membros da ANEBE, desde os líderes mundiais aos líderes nacionais e regionais, que consideramos ser um fator crítico de sucesso para o nossa missão futura. Outra das prioridades deste novo ciclo é promover juntos das autoridades e consumidores um maior conhecimento sobre o real impacto do valor desta indústria na economia nacional, procurando um tratamento fiscal justo e apelativo para o investimento e criação de emprego. Igualmente determinante, é consolidar a liderança da ANEBE no apelo a padrões de consumo inteligente através da sofisticação dos nossos programas de responsabilidade social como o 100% Cool, o BebaComCabeça.pt ou o Servir Bem-Beber Melhor.

Drinks Diary: Temos assistido, ao longo dos últimos anos, ao agravar da política fiscal em relação à produção e comercialização de álcool. Qual é a posição da ANEBE sobre este assunto?

A questão é já factual: esta indústria suporta hoje uma das cargas fiscais mais elevadas da UE face ao rendimento médio per capita, quando representa em Portugal apenas 8% do consumo total de bebidas alcoólicas. O nosso setor não tem um tratamento fiscal ajustado e adequado ao imenso valor que aporta à economia nacional. Cerca de 35% do nosso setor é produção nacional e aproximadamente 80% dos operados são pequenas e médias empresas que se sentem sufocadas com a desproporcional carga fiscal existente sobre os seus produtos. Hoje em dia, no valor de uma garrafa de 70cl cerca de 53% são impostos, o que é manifestamente insustentável. Em 2015, as bebidas espirituosas (que representam 8% do consumo) sustentaram cerca de 54,5% da receita fiscal total do IABA. Nos últimos 6 anos vimos o IEC aumentar mais de 30% sobre os nossos produtos. E apesar de toda esta escalada, o Estado arrecada cada vez menos receita. Quero com isto dizer, que a ANEBE tem esta questão como central na sua agenda e está preparada e disponível para propor soluções alternativas. De outra forma, todos perdem pois a sobrecarga fiscal tem um efeito contraproducente para a economia nacional.

Drinks Diary: Acredita que se a ANEBE for uma Associação maior terá maior capacidade de intervir no que toca a decisões políticas em relação ao setor?

O crescimento da ANEBE dará sobretudo uma voz mais forte e coesa ao setor junto da sociedade e naturalmente também junto das autoridades e decisores.  

Drinks Diary: Afirmou numa entrevista à RTP que Portugal tem “produtos únicos e culturais” e que por isso podem também ser um motor nas questões ligadas ao turismo. E em termos de exportação, existe espaço no exterior para as bebidas espirituosas produzidas com o selo de Portugal?

É verdade. Temos inúmeros produtos que hoje são parte integrante da “mesa portuguesa”- elemento fundamental da proposta de valor de Portugal como destino turístico. A inovação que introduzimos no canal HORECA e a dinamização de novas tendências na restauração e hotelaria são fruto de uma indústria enérgica e cada vez mais valorizada pelos consumidores. No ano de 2016 voltámos a crescer nas exportações de bebidas espirituosas: 48.245 M€ quando em 2015 exportámos 47.482 M€ e em 2014 45.568 M€. Significa que estamos a aumentar a nossa capacidade de competir em mercados estrangeiros e a contribuir cada vez mais para aumentar o volume das exportações nacionais. As bebidas espirituosas representam a maior exportação de produtos agroalimentares na UE (€10 mil milhões em 2015, representando um excedente comercial superior a 9 mil milhões de euros).

Drinks Diary: Quando pensamos em álcool produzido em Portugal, pensamos em cerveja, vinho do Porto, Madeira e vinho de mesa. Que sinergias podem ser feitas entre as diversas vertentes do setor?  

A atividade da ANEBE rege-se pelos princípios da cooperação e colaboração. Além disso, alguns dos nossos membros produtores de bebidas espirituosas são igualmente produtores de vinho. Quero com isto dizer que do ponto de vista dos operadores neste mercado é muito óbvia e natural a sinergia existente entre setores do mercado de bebidas alcóolicas. Para mais, apesar de, como já disse, representarmos a mais pequena fatia de consumo (quando comparado com o vinho ou cerveja) de bebidas alcoólicas, somos líderes nos programas de responsabilidade social, o que é bem demonstrativo do caráter universal da nossa missão e abordagem a possíveis sinergias. Entendo que num país como o nosso, todas as sinergias possíveis acrescentam valor e somam capacidade.  

Drinks Diary: A Associação é promotora de diversos projetos que alertam para o consumo responsável de bebidas alcoólicas. Bebe-se menos e melhor em Portugal, ou o consumo excessivo de álcool continua a ser um problema social?

Em matéria de bebidas espirituosas e comparando valores no quadro da UE, somo um país com um perfil de consumidor moderado por natureza. Em consumo anual per capita de espirituosas, Portugal consome 1L (gramas de álcool puro) VS 2,6L (gramas de álcool puro) de média na UE. Além disso, relatórios como o ESPAD, apresentado em Setembro do ano passado pelas autoridades portuguesas, revelam cada vez maior inteligência e moderação dos consumidores, mesmo entre os mais jovens. O problema do consumo excessivo existe, apesar de cada vez menos expressivo, e deve ser combatido com a promoção da moderação e não pela via da diabolização. Todos os programas da ANEBE, em colaboração com o SICAD, concorrem para as metas nacionais do PNRCAD2020, ou seja, é para nós essencial que se combatam os excessos de todas as formas pela via da informação ao consumidor e não pelo proibicionismo. Saber consumir significa saber preservar momentos de prazer e lazer. .”

Drinks Diary: Como vê a Associação o crescimento da cultura de cocktail em Portugal?  

Com grande entusiasmo. A coquetelaria tem sido um motor de dinamização do nosso mercado, uma força para reinventar muitas marcas e produtos e também um fator de qualificação do consumo. A procura de cocktails e bebidas de autor tem crescido imenso e isso significa que a indústria de bebidas espirituosas e a restauração têm sabido aproveitar uma oportunidade de adaptação às exigências de um novo perfil de consumo. Eventos nacionais como o Lisbon Bar Show são determinantes para a excelência destas tendências.

 

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