Era uma vez um vinho generoso produzido às portas de Lisboa debaixo do comando do Marquês de Pombal. Na quinta de recreio desta personagem controversa, mas crucial para o desenvolvimento do país, convivia o lazer com o trabalho. Daqui era enviado vinho para corrigir o vinho do Porto quando este já provinha da mais velha Região Demarcada de Vinho do mundo. Ia porque lhes acrescentava frescura e acidez, deixou de ir depois da queda do Marquês. Cresceu e ganhou fama para depois quase desaparecer. Fomos a Oeiras para vos contar a segunda vida do Vinho de Carcavelos.

Villa Oeiras: A segunda vida de um Vinho Generoso

O Vinho de Carcavelos era prestigiado, levado por soldados para Inglaterra depois das invasões francesas, conquistou os mercados internacionais até entrar num declínio que quase o levou ao desaparecimento. As doenças da vinha e a crescente urbanização da região são as explicações dadas para a queda abrupta da produção e o desaparecimento de inúmeros produtores. Séculos depois este é um património em perigo e a Câmara Municipal de Oeiras tomou como sua a obrigação de o proteger, tornando-se no único município produtor de vinho em Portugal.

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Primeira Vida

A demarcação da região aconteceu em 1907 e foi publicada em Carta de Lei que reconhece e determina o que é o vinho de Carcavelos em 1908, sob o reinado do Rei D. Carlos I, Rei de Portugal e dos Algarves que viria a ser assinado a 1 de fevereiro de 1908, no evento marcante da história da nação, o Regicídio que condenou a Monarquia à queda e instaurou a primeira República Portuguesa em 1910.

As referências documentadas sobre a produção de vinho na região são bem mais antigas, remontam ao Século XIV, mas só no início do século XVIII, foram introduzidos os processos técnicos que permitiram a produção do vinho fortificado.

Foi a meio do século XVIII que o Vinho de Carcavelos ganha relevância, quando o Conde de Oeiras, que conhecemos melhor pela sua vida política enquanto Marquês de Pombal começou a produzir vinho na sua quinta de Oeiras.

Sebastião José de Carvalho e Mello, responsável pela demarcação da primeira região de vinho do Mundo, o Douro, consegue influenciar D. José I e este ajuda-o a divulgar o vinho de reconhecida qualidade nomeadamente enviando-o como presente à corte de Pequim em 1752.

A popularidade do Vinho de Carcavelos continuou a crescer no início do século XIX, impulsionado pelas tropas inglesas que nos vieram ajudar a combater as invasões francesas e levaram o gosto pelo vinho para Inglaterra.

A história de sucesso é interrompida abruptamente na segunda metade do século XIX. As doenças da vinha que atacaram um pouco por todo o país foram implacáveis na região. Quando apareceu a primeira praga de oídio a produção caiu das 1500 pipas para 12. Seguiu-se o míldio e a filoxera e a região não mais recuperou.

A sua localização privilegiada às portas de Lisboa, com vista para o rio que desagua no mar ditou a proliferação de uma outra praga, o betão e ao longo do século XX muitas foram as quintas desmembradas para a construção de novos bairros. A área que era rural passou a ser uma área urbana com grande densidade populacional. Sobrando um pulmão verde, instalado no que resta da original quinta do Marquês do Pombal misteriosamente integrado no coração de Oeiras.

Segunda Vida

Entalada entre a Ribeirade Caparide e a da Lage, os bairros suburbanos e o centro da cidade de Oeiras encontramos o que resta da Estação Agronómica Nacional, um pulmão verde que se estende por vários hectares ocupados com vinha, velhos edifícios dispersos, antigas estruturas da Quinta do Marquês de Pombal e alguns cavalos.

É aqui que resiste a maior parte da produção do Vinho de Carcavelos. Neste espaço estão 12,5ha dos 25ha espalhados entre as quatro quintas que produzem o Vinho de Carcavelos, a mais pequena região demarcada de Portugal. E é aqui que todo o vinho é vinificado, mais propriamente no Casal da Manteiga, um edifício do século XVIII parte integrante da Quinta do Recreio do Marquês de Pombal. É também no Casal da Manteiga e na Adega do Palácio do Marquês de Pombal, a maior do século XVIII da região que estagiam em barricas os vinhos antes de serem engarrafados.

Foi em 1997 que a Câmara Municipal de Oeiras celebrou um protocolo de Cooperação com a Estação Agronómica Nacional com vista a reavivar o Vinho de Carcavelos. Em 2001 foi montada a adega que permitiu começar nesse ano a produção com cerca de 3500L.

Inicialmente o Vinho foi lançado para o mercado com o nome de Conde de Oeiras, mas o atual Conde de Oeiras achou tratar-se de uma apropriação ilegal do seu título nobiliárquico e processou a C.M. de Oeiras. Processo que culminou em 2014 com a mudança de nome e imagem do vinho que passou a chamar-se Villa Oeiras.

Neste momento a produção permite estar presente no mercado nacional e exportar já para alguns países, como a Espanha, Inglaterra e mais recentemente o Brasil.

O esforço da C.M. de Oeiras é ainda solitário, um ou outro produtor estão a dar os primeiros passos e essa é a ideia do projeto municipal, preservar o património, promover o empreendedorismo na área e esperançadamente dar uma nova vida ao Vinho de Carcavelos restituindo-lhe a dignidade real que já teve no passado.

Do Casal da Manteiga aos Jardins do Palácio do Marquês de Pombal: a vinha no meio da cidade

Percorre-se uma rua ladeada de altas árvores até chegar a este edifício octogonal com um grande pátio central que é o Casal da Manteiga. No ponto mais alto, da antiga sala onde os senhores almoçam nos dias de caça vê-se a região desde a Serra de Sintra, ao Tejo, as cidades e as vinhas. Era final da manhã quando subimos as escadarias, num dia quente de julho e da Serra de Sintra soprava uma brisa fresca muito leve, algo pouco usual na região.  Apesar do cenário deslumbrante, o interesse está no piso térreo, é aí que se faz a magia de transformar as uvas em vinho.  Na ala da esquerda está instalada a zona de vinificação e na ala da direita as salas frescas onde descansam as barricas com o vinho já fortificado.

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Às portas do Casal da Manteiga estende-se a vinha pelo vale ladeada pelos terrenos da Estação Agronómica Nacional, pelo muro secular da Quinta e pela selva de betão que está para lá disso. A região é conhecida por produzir vinhos frescos e com acidez acentuada, as suas condições geográficas conferem-lhe uma acentuada humidade noturna que é enxugada das uvas pelo vento seco que sopra de norte, quase invariavelmente ao fim da manhã. Mas é julho,  as cigarras gritam no feno e não há conforto entre as sombras frágeis das árvores. Apesar de haver castas tintas a maior parte da vinha é de castas brancas com uma incidência maior em três variedades: O Galego Dourado, o Ratinho e o Arinto. Esta trilogia deve constituir 75% do blend do vinho de Carcavelos. Outras castas como a Seara Nova ou o Rabo de Ovelha estão contempladas na legislação para a produção de Vinho de Carcavelos, mas segundo Tiago Correia, Enólogo da casa, não são utilizadas.

A Casta Galego Dourado está bem adaptada à região e a estas vinhas instaladas num solo argilo-calcário, com declives voltados a sul onde abunda a água, de tal forma que não há necessidade de rega. Produz vinhos bons para envelhecer que provém de bagos grandes e ricos. Já a Ratinho, com os seus bagos doces é uma casta com muito álcool, boa acidez e frescura. Este blend é complementado com o Arinto que acrescenta acidez e mineralidade ao vinho. Em traços largos, é esta a base do Vinho de Carcavelos.

Há na vinha castas tintas, como o Castelão, a Trincadeira ou a Amostrinha que são ainda parte de ensaios para a criação de novos produtos.

 

Da vinha para a Garrafa

A vindima começa a meados de setembro, este ano está um pouco atrasada devido ao ano algo atípico em termos climatéricos que tem dado muito trabalho aos Enólogos um pouco por todo o país.

É feita à mão e em celhas,  todo o processo é rápido devido à proximidade da adega. Por essa altura do ano há mais movimento no espaço, que funciona durante o ano inteiro com uma equipa constituída apenas por mulheres.

O vinho é então vinificado, metade pelo método de bica aberta outra metade por curtimenta. As castas são vinificadas em separado e o blend só feito um ano e meio antes de engarrafar.

Para fortificar o vinho utiliza-se aguardente da Lourinhã a 77% de teor alcoólico. Após este processo o vinho repousa até março no inox para assentar e só depois segue para o estágio em madeira.

Por lei o estágio em madeira deve ter o mínimo de 2 anos, mas no Villa Oeiras não se fazem blends com menos de cinco anos.

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O que vai sair das barricas de carvalho é um líquido cor topázio, aveludado, com aromas amendoados.

Na adega há vários tipos de barricas, com vários tipos de madeiras e tostas. Apesar de o Villa Oeiras ter já um perfil e uma personalidade própria, Tiago Correia diz-nos que estão constantemente a fazer experiências e a tentar perceber como o vinho se comporta mediante as condições que tem para envelhecer.

O espaço destinado ao envelhecimento do vinho divide-se entre o Casal da Manteiga e a Adega do Palácio do Marquês de Pombal, que nos últimos anos abriu as suas portas e permite aos visitantes percorrer o património arquitetónico e provar os vinhos.

Em 2012 o Vinho foi reconhecido como o melhor vinho a concurso no Concurso Internacional de Vinhos La seleccion del Sindaco’ 12 com 93,6 pontos. Uma distinção importante para a equipa e para a credibilidade do projeto que se faz entre os muros, num espaço que convive paredes meias com a cidade de Oeiras e que muitos não imaginam que ali está. Porque descendo as vinhas, acompanhando o seu declive para sul através do campo, sentido o fresco da ribeira da Lage que corre a par, rasgámos caminho pela Estação Agronómica Nacional observando estruturas que vão prevalecendo sobre o passar do tempo. Os antigos edifícios da estação convivendo com os monumentos que faziam as delícias dos senhores do século XVIII. O tanque de pesca e os seus painéis de azulejos, o caís e os jardins até chegarmos às portas do Palácio, mesmo no centro da cidade.

Muitos de nós já o vimos imponente no centro da terra, ou visitámos os seus jardins para ver concertos do EDP Cool Jazz Fest. Talvez tenhamos deambulado pelo jardim dos Poetas sem perceber que ali ao lado está um pedaço de história relevante para a região. Um pedaço de história edificado, mas mais importante um pedaço de história imaterial que é a preservação da produção de Vinho de Carcavelos, algo que apenas aqui se pode fazer e que é a expressão de uma região.

 

Vinho de Carcavelos

O Vinho de Carcavelos é um vinho fortificado logo doce e com um teor alcoólico mais elevado que um vinho tranquilo, que varia entre os 17,5 e os 20 graus. Podemos equipará-lo a um vinho do Porto ou a um moscatel. Deve ser bebido fresco e a acompanhar sobremesas, queijos fortes ou sozinho.

A sua produção está cingida a um espaço muito pequeno, próximo da foz do Tejo que incluí as freguesias de São Domingos de Rana, Carcavelos no Concelho de Cascais e parte da Freguesia de Oeiras no concelho de Oeiras.

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Palácio do Marquês de Pombal

O edifício é parte integrante da antiga Quinta de Recreio da Casa de Pombal. Construído no século XVIII no centro histórico de Oeiras, está próximo da Ribeira da Lage e incluía um grande terreno, hoje em dia, o que resta da quinta inicial é o espaço ocupado pela Estação Agronómica Nacional onde se produz o Villa Oeiras. O Palácio é propriedade do Município de Oeiras, em 1940 foi considerado Monumento Nacional e está em grande parte aberto ao público.

O espaço é maioritariamente o reflexo de Sebastião José de Carvalho e Melo, a mente por detrás da reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755. A sua natureza prática juntou o espaço de lazer e cultura ao espaço produtivo investindo na produção de vinho e azeite entre outras atividades.

Dos seus jardins podemos destacar a fonte onde brilha a estátua com as quatro estações do ano ou a fonte dos poetas. No interior, a azulejaria, os frescos e as esculturas.

A adega, a maior da época na região foi pensada para ser eficiente em termos de temperatura, com a passagem de ribeiro por de baixo do seu solo e a orientação da construção a ser fatores marcantes.

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