Depois de ter encontrado em alguns menus o clássico Whiskey Sour, usualmente feito com bourbon ou rye whiskey escrito Whisky Sour e num outro bar de hotel 5* a denominação de “American Scotch”, achei que estava na altura de falar deste assunto.

Não me irei focar no líquido em particular por esse se apresentar em estilos tão diferentes, desde os diversos grãos usados como base, o uso da queima de turfa para a secagem da maltagem, o número mínimo de anos de envelhecimento ou o tipo de barril usado virgem, versos tostado, entre outros aspetos, irei deixar isso para debater noutro artigo e apenas falar sobre a sua escrita.

A palavra em si, whisk(e)y tem origem Celta, deriva da palavra usquebaugh, do gaélico escocês uisge beatha ou do gaélico irlandês uisce beatha. Sendo que uisge significa água e beatha, vida, o termo water of life era apenas mais um a juntar a aqua vitae ou eaux-de-vie, termos aplicados a destilados espirituosos em busca do elixir da vida.

Hoje em dia no whisk(e)y existem várias subcategorias que apresentam diversos estilos, no entanto, a nível de escrita podemos simplificar dizendo que os whiskeys americanos e irlandeses optam pela palavra Whiskey e o resto do mundo, sendo os mais conhecidos, os whiskies escoceses, canadianos, japoneses ou indianos, optam pela palavra Whisky.

Para que possamos perceber o porquê de assim ser, a História diz-nos que a destilaria com a licença mais antiga para destilar, passada pelo rei James I em 1608, e que por sinal ainda se encontra em funcionamento nos dia de hoje, é a do whiskey irlandês Bushmills, mesmo que se tenha tornado uma marca registada nos anos 1700’s, continua ainda a ser a mais antiga destilaria com produção de whiskey, já a primeira destilaria na Escócia apenas apareceu em 1772 para produzir a marca Littlemill whisky, mas que infelizmente fechou as suas portas em 1998. Atualmente a mais antiga destilaria ainda em funcionamento na Escócia é a destilaria Glenturret que abriu portas em 1775 e que embora tenha estado fechada por uns tempos, desde 1921 devido à crise sentida durante o período da proibição nos E.U.A. Voltou a ser aberta em 1959 e assim permanece, em funcionamento ainda nos dias de hoje.

Nos anos 1700’s, a opressão dos britânicos, fez com que os irlandeses perseguidos política e religiosamente, imigrassem em busca de liberdade nos E.U.A. E com eles levaram os conhecimentos e técnicas necessárias para a produção de whiskey e foi por essa influência inicial que os americanos de uma forma geral adoptaram por escrever Whiskey. Claro está, que como em tudo, existem exceções à regra, como é o caso das marcas, Maker’s Mark, George Dickel ou Old Forester que optaram por lhe chamar Whisky.

Por sinal, o recentemente aclamado melhor whisky do mundo em 2014 pela Whisky Bible de Jim

Murray, fora um whisky japonês. Dito desta forma até me dá vontade de esboçar um sorriso, porquê? Ora, o whisky japonês, que quando comparado com o escocês ou irlandês é um produto muito mais recente, nasce no início dos anos 1900’s, quando o jovem Masataka Taketsuro volta da Escócia onde tinha ido em 1918 com apenas 24 anos estudar química na Universidade de Glasgow e aprender a arte da destilação na destilaria de Hazelburn. Masataka Taketsuro tornava-se assim no fundador da produção de whisky no Japão primeiramente sob a alçada do que se veio a tornar, grupo Suntory na destilaria Yamazaki até que, cerca de 10 anos depois em 1934 se tornou o fundador do Nikka Whisky. Da Escócia tinha trazido as técnicas para produzir whisky e a influência da maneira como era escrita.

Não há muito tempo, em dezembro de 2008 que o colunista do popular New York Times, Eric Asimov, tinha escrito um artigo sobre single malt Scotch, referindo-se a este como whiskey, mesmo que tenha deixado o porquê de o assim referenciar no mesmo artigo, as críticas dos fans de Scotch Whisky eram tantas, vindas de toda a parte do mundo que fez com que o NYT revisse o seu “New York Times Manual of Style Usage” onde ficam previstas todas essas maneiras de escrever.

Regra geral, se seguirmos o que vem mencionado no rótulo de cada marca em particular, não tem por onde enganar. E se na prática utilizamos um Bourbon na confeção do Whiskey Sour, então…

Artigo de opinião escrito por Nélson Bernardes, Diretor da Revista Drinks Diary, para a primeira edição da Revista Drinks Diary.

 

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