Aterrar na Ilha da Madeira não é próprio para cardíacos, o avião faz uma curva apertada e encaramos a pequena pista assente em pilares, feita à força de mãos e temos de nos perder na beleza inóspita das montanhas para não pensarmos em tudo o que poderia correr mal. Mas esta sensação de medo é ultrapassada quando pomos os pés em terra firme e para lá dos vidros do aeroporto vemos as Ilhas Desertas estacionadas no mar mesmo em frente a este monte vulcânico onde acabamos de chegar. A nossa visita tem o propósito de ver como se faz o Rum num dos últimos territórios europeus que ainda o produz. Mas é impossível não ter a certeza de que há muito mais para ver na Ilha da Madeira.

Mário Gomes, Embaixador de Marca do William Hinton, é quem nos espera e foi o nosso guia pela ilha. Guiou-nos pela intrincada rede de estradas, túneis, curvas e encosta da ilha até chegarmos ao Engenho Novo, o local onde se transforma a cana-de-açúcar em Rum e mel. Situa-se numa zona alta da calheta e encontrava-se inerte. A produção é concentrada em dois meses por ano, abril e maio. O resto do ano a maquinaria jaz silenciosa e movendo-se o trabalho para os armazéns.

Ainda assim fomos ver como se faz o Rum, Celso Olim Diretor Geral do Engenho.

Novo recebeu-nos e guiou-nos ao longo do processo. Desde que a cana entra no esmagador, que recebe cerca de 50t por dia no ponto alto da produção quando se labora 24 horas por dia. Trabalho contínuo porque após cortada a cana deve entrar no processo o mais rápido possível para não perder qualidades.

Aqui a cana é esmagada e extraído o sumo. Ela volta a passar aí uma segunda vez para que nada sobre. O sumo doce é depois filtrado e o resultado fermentado e destilado por destilação contínua. O Rum é destilado apenas uma vez, de forma a manter o aroma e frescura.

O engenho pode ainda escolher fazer mel de cana. Mas aqui a estrela é a célebre aguardente local, que por definição é um Rum Agrícola.

Este Rum que é mais fresco e herbal que aquele a que estamos acostumados e que  é ainda uma categoria pouco acarinhada no setor. No entanto, é esta a base da incontornável Poncha e uma base versátil para um grande número de cocktails.

Celso Olim mostrou-nos as máquinas, explicou-nos o processo de destilação e descemos do alambique para a zona onde o Rum é envelhecido, onde o líquido se transforma em Rum William Hinton.

Willian Hinton: Rum novo com história antiga.

 

Celso Olim Diretor Geral do Engenho

A chaminé do antigo Engenho Hinton vive ainda imponente num jardim público do Funchal. Embora a história da casa remonte ao ano de 1845, o Engenho Novo, projeto de um dos herdeiros, só se estabeleceu-se em 2006 e desde aí tem vindo a produzir uma série de produtos, na sua maioria para o consumo local, como aguardente de cana para a Poncha, Ponchas engarrafadas e mel de cana para os bolos. Mas com o tempo resolveu apostar na qualidade da sua aguardente e deixar de ter medo de lhe chamar Rum, o Rum William Hinton.

Neste momento têm duas referências no mercado, Rum William Hinton Original e o William Hinton 3 anos, envelhecido em barricas de carvalho francês o que lhe confere paladar e carácter.

Não há tradição de Rums envelhecidos na Madeira. A produção foi instável ao longo da história, a produção foi maioritariamente escoada no mercado regional, e a Poncha pede Rum jovem. Mas dá para perceber que é vontade da casa mudar este panorama. Enquanto passeamos entre barricas de carvalho e de outras madeiras nobres,  Celso Olim conta-nos as experiências que estão a fazer e as perspetivas que tem no futuro. Percebemos que estamos perante um projeto de continuidade, que quer criar o seu espaço no mundo do Rum e colocar a Madeira no mapa.

 

A cana-de-açúcar na ilha da Madeira

A cana-de-açúcar chegou à Madeira pouco depois do início da sua colonização. O Infante Dom Henrique ordenou a plantação das primeiras estacas importadas da Sicília por volta do ano de 1425. O facto é que a planta se adaptou bem ao clima e ao solo da Ilha e a sua cultura revelou ser rentável para os agricultores locais. No início do século XVI a Madeira era o maior exportador do mundo de açúcar, o ouro branco.

No entanto, a sua história na ilha não tem sido estável, a produção teve altos e baixos, problemas como pragas, excesso de produção, leis com vista a diminuir a produção de álcool e combate ao alcoolismo foram condicionando as culturas. A meio do século XIX a produção de Rum generalizou-se na ilha, por essa altura muitas foram as povoações que passaram a ter o seu próprio engenho e a plantação de cana-de-açúcar voltou a florescer. Até ao início da segunda década do século XX a produção cresceu, até que começou a decrescer e as fábricas a fechar até restarem quatro engenhos em toda a ilha, destes apenas três produzem aguardente de apenas existe uma marca de Rum Agrícola ativa, a William Hinton.

A cana-de-açúcar tem uma boa rentabilidade na Madeira e pode ser plantada até aos 200m de altitude. Apesar de ser considerada uma cultura intensiva, na ilha assume um carácter extensivo devido ao relevo acentuado que não permite grandes plantações, sendo por isso grande o número de agricultores que produzem a cana-de-açúcar e a entregam todos os anos nos engenhos nos meses de abril e maio. As condições da ilha só permitem a apanha da cana uma vez por ano.

Atualmente não se produz açúcar, apenas mel de cana e Rum agrícola.

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