Wilson Pires, algarvio de gema, foi o vencedor da primeira edição da Competição Barman do Ano em 2014. Trabalhava na altura no Gusto by Heinz Beck no Hotel Conrad Algarve, mas já havia estado 7 meses “embarcado” num barco cruzeiro, feito parte de uma banda e terminado um curso superior de Turismo. Todas estas experiências avivaram a sua paixão pela arte de bem servir e aguçaram os sentidos para a procura de novos sabores e para a criação de cocktails.

Hoje vive e trabalha em Amesterdão e acrescentou ao currículo vários títulos individuais e para a sua equipa do Hotel Waldorf Astoria Amsterdão onde trabalha.

Continua a adorar viajar, mas a certeza é que não há lugar como o Algarve.

Neste “Nós por Lá” fomos conhecer melhor Wilson Pires, um Bartender Português na irreverente cidade de Amesterdão.

 

Drinks Diary: Venceste o Barman do Ano 2014, que influência isso teve no teu percurso?

W – Teve uma influência enorme. Esta foi a primeira grande competição de Bar/Barman em Portugal e não passou despercebida a ninguém na nossa área.

Para além de toda a exposição que me deu a mim e a todo o meu trabalho, deu-me também confiança para acreditar mais nas minhas capacidades, motivação para trabalhar e estudar ainda mais e coragem para não ter medo de arriscar nem de errar.

Se hoje sou quem sou e estou onde estou a nível profissional, posso agradecer muito ao impulso que a vitória no Barman do Ano me deu na carreira.

 

Drinks Diary: Depois de vencer essa competição, participaste em várias, venceste o F&B Masters do Grupo Hilton, o Elit Art of Cocktail em Amesterdão, entre outras. O que te leva a participar nestas competições? Achas que são um fator importante na carreira de um Bartender?

W – Há várias razões que me levam a entrar em competições. Como já referi acima, a exposição que só o facto de estares numa final dá ao teu trabalho, nem que seja só uma pessoa nova pelo menos vai-te conhecer. A tua rede de contactos aumenta imenso, conheces novos Bartenders, embaixadores de marcas, importadores, donos de espaços de cocktails. Mais uma vez, o teu trabalho chega a todos estes sectores e a tua rede de contactos trabalha. E claro, não menos importante, os prémios. Sobretudo porque normalmente estes incluem formações e/ou viagens pois dão a oportunidade de aumentares o teu conhecimento a nível profissional e cultural e mais uma vez, tens a hipótese de conhecer colegas de todo o mundo com a mesma paixão que tu mas com um estilo totalmente diferente, devido às suas raízes.

“Eu adoro estar rodeado de pessoas e sempre quis ter um trabalho onde pudesse pôr a minha criatividade em prática. Não sei se nasci para ser Bartender, mas sinto-me realizado e feliz por o ser.”

Drinks Diary: Neste momento trabalhas no Waldorf Astoria Amesterdão, fala-nos dessa experiência. Como é sair do Algarve para Amesterdão?

W – Estou cá há pouco mais do que um ano e está a ser uma experiência fantástica, melhor do que aquilo que poderia imaginar. Já conto com alguns prémios individuais, mas sobretudo, alguns coletivos, os mais especiais para mim.

Sinceramente as maiores dificuldades tem sido a língua e o clima. (risos)

Nenhum sitío do mundo se irá alguma vez comparar ao Algarve pois é lá que está a minha história, a minha família e muitos dos meus amigos. Ainda que aqui já me sinta muito bem-adaptado.

Até agora sinto que a comunidade do Bar daqui é muito receptiva a novos Bares e Bartenders, pois existe a consciência que a concorrência é a única forma de todos crescermos e evoluirmos. Também existe imensa partilha através de muitas formações e mesmo com os Bartenders a visitarem-se uns aos outros e a dar a provar ingredientes mais raros e receitas próprias. Isso é a muito importante para nos continuarmos a inspirar uns aos outros.

Não é a minha casa, mas está a ser uma adaptação excelente. Vejo-me ficar por aqui por mais algum tempo.

 

Drinks Diary: Antes de passares pelo Gusto by Heinz Beck no Conrad Algarve fizeste uma temporada na Celebrity Cruises. Como é estar “embarcado”?

W – Foram 7 meses incríveis. Posso dizer que foi aí que a minha paixão pela hospitalidade cresceu e a minha paixão pelo bar tornou-se mais forte.

A vida a bordo é uma vida de extremos. As coisas que são boas, são mesmo muito boas! Por exemplo viajar todos os dias, conhecer pessoas de todo o mundo, o dinheiro que se poupa, até porque ali o dinheiro é a motivação maior. Por outro lado, as coisas más são muito más pois não tens vida própria. É só trabalhar, trabalhar e trabalhar. Não tens condições para falar com família/amigos nem de relaxar um pouco, pois dormes, comes e descansas no mesmo local onde trabalhas. Perdes a noção do mundo/vida real.

Drinks Diary: Fizeste um percurso académico na Universidade do Algarve e entretanto apaixonaste-te pelo Bartending. O que querias ser antes desta paixão e como esta mudança alterou a tua vida?

W- Nessa altura eu fazia parte de uma banda, super, super talentosa, onde os nossos dois vocalistas eram uns génios, um deles o Diogo Piçarra, e toda a banda era uma família.

Nessa altura sempre pensei que houvesse a possibilidade da nossa banda vingar, mas houveram alguns percalços e a coisa não se deu. Também adorava a área de organização de eventos e cheguei a trabalhar nisso também. Agora acabo por aplicar esses conhecimentos na minha área de trabalho atual, por isso, nada desse tempo foi tempo perdido.

 

Drinks Diary: O que é para ti ser Bartender? A tua profissão define-te?

W- Essa é fácil, ser Bartender é ser um anfitrião. O teu Bar é a tua sala de estar e a única coisa que tens que fazer é certificar-te que cada um dos teus convidados está bem e está a ter a atenção que deseja, seja muita ou pouca.

Eu adoro estar rodeado de pessoas e sempre quis ter um trabalho onde pudesse pôr a minha criatividade em prática. Não sei se nasci para ser Bartender, mas sinto-me realizado e feliz por o ser.

 

Drinks Diary: O que é que procuras quando entras num bar?

W- Procuro exatamente aquilo que dou. Ser bem-recebido, ter um bom serviço e se as bebidas e comidas forem de qualidade e feitas com paixão, estou satisfeito. E se for surpreendido positivamente, então ainda mais feliz fico.

 

Drinks Diary: Estando fora, como olhas para a indústria de bebidas em Portugal?

W- A nossa indústria está a crescer de forma rápida e forte, e na minha opinião devemos de agradecer ao Sr. Dave “Cinco Lounge” Palethorpe e ao projecto “Barman do Ano” que em alturas diferentes ajudaram a mudar o jogo em Portugal.

Neste momento já há muita coisa a acontecer. Desde excelentes Bares de cocktails a abrir por todo o país, até nas ilhas, projetos como a “Cocktail Week” ou a “Drinks Diary” a darem um grande ênfase à indústria e também a chegada das grandes competições internacionais a Portugal.

Não nos podemos esquecer que os cocktails não fazem parte da nossa cultura, não estamos no Reino Unido onde os filhos nascem a verem os pais a beberem um Bloody Mary ao pequeno-almoço ou nos EUA onde qualquer pessoa sabe mais cocktails clássicos do que eu.

Estamos a falar de um país de vinho e de cerveja que há poucos anos se começou a apaixonar pelos cocktails. Há um grande caminho a fazer para os integrar na nossa cultura, pois é algo novo. Mas estamos num bom caminho, sem dúvida nenhuma!

“Cocktails não fazem parte da nossa cultura, não estamos no Reino Unido onde os filhos nascem a verem os pais a beberem um Bloody Mary ao pequeno-almoço ou nos EUA onde qualquer pessoa sabe mais cocktails clássicos do que eu (…)Mas estamos num bom caminho, sem dúvida nenhuma!”

 

Drinks Diary: Sei que gostas muito de viajar. Como é que as tuas viagens influenciam o teu trabalho?

W- As viagens são parte fundamental no meu trabalho. Tudo o que é novo para mim, inspira-me. seja um ingrediente ou uma peça de porcelana. Seja uma paisagem ou um cheiro. É exatamente isso que procuro quando viajo. Quero sempre abraçar a cultura local para que possa trazer algo dela comigo.

 

Drinks Diary: Quando pensas no futuro, daqui a 20 anos imaginas-te como Bartender? Ou tens outras ambições?

W- Daqui a 20 anos gostava de poder estar a partilhar os meus conhecimentos por todo o mundo, com a nova geração, pois tenho a certeza que ia estar sempre a receber novo conhecimento de volta e fazer aquilo que tento fazer todos os dias: Não me limitar a criar, mas, criar inspiração!

 

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